Géninha canta os poemas da mãe
Disco e livro saem juntos neste Natal.
O novo disco de Eugénia Melo e Castro é muito especial. ‘Conversas com Versos’, que já está nas lojas, recupera o livro homónimo de Maria Alberta Menéres, agora musicado pela filha e ilustrado pela neta, Mariana Melo. Três gerações de artistas juntas num livro/CD que chega mesmo a tempo do Natal.
– Há algum tempo que desejava musicar os poemas da minha mãe. O livro ‘Conversas com Versos’, que marcou várias gerações de crianças, foi particularmente importante para mim e para a minha irmã, como facilmente se imagina. Vivi com ele. Acompanhei a sua feitura. Depois, tornou-se um livro tão marcante em Portugal como o ‘Ou Isto ou Aquilo’ da Cecília Meireles, no Brasil. Deu origem a um fenómeno literário: o enorme interesse surgiu em torno da literatura infantil.
A minha mãe escrevia e mostrava-nos o que ia escrevendo. O livro saiu em 1968, quando eu tinha dez anos. E foi um estoiro. Uma grande novidade na vida intelectual portuguesa. Nunca se tinha escrito poesia para crianças. Sempre achei que os poemas eram alegres e musicais.
Sim. Recorri a vários estilos. Reggae, rap, samba… Há uma canção de embalar. Para mim, o que era importante era fazer música que transportasse as crianças para os universos mágicos que a minha mãe conseguiu criar com palavras. Tive o apoio musical do produtor Eduardo Queiroz, do Nath Calan e do Camilo Carrara.
Quando o disco estava pronto e se começou a falar da reedição do livro, levantou-se a questão da ilustração… Eu sempre sonhei ilustrar um livro da minha avó. Esta pareceu a ocasião perfeita.
A Mariana conviveu muito com a avó, até mais do que é habitual... Cada vez que eu ia para o Brasil ela ficava com a minha mãe. Meses. Assistiu à criação de muitos livros.
A minha avó escrevia à máquina e eu sentava-me ao lado. A fazer desenhos, numa mesinha. Ela dizia-me: Estou a escrever a história de uma galinha. E eu desenhava uma galinha. Era uma forma de estarmos juntas, de estarmos a brincar, sem interromper o trabalho que ela fazia.
A casa da minha mãe está coberta de desenhos da Mariana. Só por acaso é que nunca tinha saído um livro dela com ilustrações da Mariana.
– Aconteceu quando lancei o meu primeiro livro infantil, ‘Camufilda, a História de mais uma Princesa’. A Mariana ilustrou-o. Era uma história que lhe contava desde pequenina... Digamos que foi um pré-ensaio para este trabalho. Já estamos a pensar na continuação das aventuras da Camufilda…
Difícil foi a Mariana não me deixar ver nada antes do final! Percebo que é a maneira de trabalhar que ela tem, mas angustia-me. Isola-se, fica no canto dela… Fico numa ansiedade louca.
Eu mostrei-te alguns desenhos…
Mostra-me uns desenhos e diz: Olha, não é nada disto! Eu percebo. Eu também era assim. Quando lancei a minha carreira como cantora lá em casa ninguém sabia que eu cantava. Há uma repetição de atitudes. Mas que irrita, irrita.
É inegável. Tanto a minha mãe como o meu pai são pessoas de enorme criatividade e grande liberdade de expressão. Proporcionaram-nos uma escolha imensa de saídas profissionais, mas desde sempre que soube que a minha tendência seria artística. Na área da composição e da escrita. Comecei muito cedo a escrever, sempre escrevi. Canalizei isso para as letras das minhas canções.
Acho que é um bocado inevitável. O meu pai é escultor [António Campos Rosado], a mulher dele é ilustradora [Fernanda Fragateiro]. Tive influências artísticas desde a infância e sempre estudei artes. Fiz Arte Pública na Bélgica, estudei fotografia e desenho. Passei pela produção, fiz curadoria, edição... Mas agora que tive a minha filha, a Mia, fiquei com vontade de voltar a ser criativa.
Géninha – Sempre imaginei o Ney a cantar ‘O Meu Chapéu’. Ele conhece muito bem a minha mãe e adorou o disco. O Lino Krizz é um músico incrível que transforma tudo em rap.
É o que desejamos, todas. E há muitos poemas para musicar.
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