Inês com vontade de amar

Inês de Medeiros sempre quis ser encenadora, mas ditaram os acasos da vida que tivesse iniciado a sua carreira como actriz e que viesse a tornar-se uma realizadora premiada.

10 de abril de 2007 às 00:00
Inês com vontade de amar Foto: Vítor Mota
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Esta quinta-feira, porém, concretiza, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, um sonho antigo: estreia a primeira encenação a partir da correspondência de três grandes poetas do séc. XX: Rainer Maria Rilke, Boris Pasternak e Marina Tsvetaeiva.

‘Correspondência a Três’ – que se apresentará no CCB até ao próximo domingo – acompanha a evolução de um estranho triângulo amoroso, que só teve existência material através das cartas trocadas pelos três artistas e que viria a desfazer-se, quatro meses depois de começar, com a morte de Rilke, por leucemia. Para a encenadora, a escolha do texto impunha-se. “O texto é maravilhoso, muito poético, e conta uma belíssima história de amor a três”, explicou ontem, na apresentação. “Expressa uma grande vontade de amar, mesmo sabendo que o amor está condenado, pelo puro prazer de amar...”

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CONVITE DE MEGA FERREIRA

A ideia para este espectáculo partiu do director do CCB, António Mega Ferreira, que desafiou Inês de Medeiros a levar à cena esta singular história de amor. “Quando o livro saiu, editado pela Assírio e Alvim, fizemos umas leituras e o dr. Mega Ferreira achou que uma boa maneira de divulgar estas cartas era levá-las à cena”, recordou a encenadora. “Acho que o espectáculo cumpre essa função e espero que o público saia daqui com vontade de ler outras obras dos três grandes poetas.”

Ao lado dos actores Cláudio da Silva e Amândio Pinheiro, Inês dá cara e corpo a Marina Tsvetaeiva, poeta russa que também escolheu a França como segundo país. Uma semelhança que, garantiu a criadora, se fica por aí: “Nunca me senti, como Tsvetaeiva, uma exilada. Portugal faz-me falta e sinto que há imensas coisas para fazer por cá.”

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SEQUÊNCIA DE MONÓLOGOS

O espectáculo organiza-se da mesma forma que o livro: como uma sequência de cartas, que mais não são do que os monólogos das personagens. Num espaço vazio, há um sofá ao fundo, uma secretária à direita, um monte de livros e um pequeno banco à esquerda. Cada personagem ocupa o seu espaço e ‘diz’ as suas cartas. “Guardei a estrutura das cartas porque não me sentia com coragem para me estrear na encenação a orquestrar muita gente e muitos enredos”, justifica.

O TALENTO É GENÉTICO

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Inês de Medeiros nasceu no seio de uma família talentosa e bem conhecida dos portugueses, que parece provar a tese de que o talento está inscrito no código genético. A avó paterna era a escritora Odete de Saint-Maurice, o avô, Achilles de Almeida, era músico, a mãe, Maria Amélia Goulart de Medeiros, cantora lírica, e o pai, o muito conhecido maestro e compositor António Victorino de Almeida. E que dizer das irmãs? Maria de Medeiros, que todos conhecem como actriz de carreira internacional, acaba de estrear-se como cantora em ‘A Little More Blue’, enquanto Anne Victorino de Almeida se dedica inteiramente à música: é professora, violinista e compositora.

Inês de Medeiros nasceu em Viena, Áustria, em 1968. Cresceu em Lisboa, onde, ainda adolescente, começou a trabalhar como actriz. Vive desde 1995 entre a capital portuguesa e Paris. No cinema, participou como actriz em mais de 20 longas-metragens de realizadores como João Botelho, Fonseca e Costa ou Jacques Rivette. Trabalhou como assistente de realização e dedica-se, desde 1998, à realização de filmes documentais e de ficção, tendo já recebido vários prémios que distinguem a qualidade do seu trabalho.

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