Judas matou-se por amor
Luís Miguel Cintra hesita em chamar-lhe um espectáculo de teatro. Prefere dizer que é “um objecto muito mais sério”. ‘Morte de Judas’, um monólogo que Paul Claudel publicou em 1933, numa altura em que tinha decidido consagrar-se à releitura das Sagradas Escrituras, acaba de estrear no Teatro do Bairro Alto – Cornucópia, onde cumprirá uma curta série de representações (até 3 de Abril). Um trabalho que quer fazer-nos repensar sobre a relação entre a mundanidade e a espiritualidade, entre a nossa vida quotidiana e o papel que nela assumem os problemas da alma.
Num dispositivo muito simples, concebido pela cenógrafa Cristina Reis e que evoca um caixão colocado na vertical, só a cabeça de Dinarte Branco é visível. Isso e um fio de prumo que pende sobre o actor, como que vindo directamente de Deus.
É essa, pelo menos, a leitura que dele faz o próprio Luís Miguel Cintra, que hesita, também, em assumir a ‘encenação' deste trabalho.
"Encenação é uma palavra que aqui não cabe", explicou ao CM. "Este é o produto de uma reflexão e um diálogo entre três pessoas -eu, a Cristina Reis e o Dinarte Branco - sobre o texto de Paul Claudel. Aliás, foi por essa razão que convidámos o Dinarte para integrar o projecto. Porque sabíamos que, para além do domínio total dos seus meios expressivos, ele tem também interesse por esta temática."
Num monólogo não isento de humor, aqui se partilha com o público as reflexões do homem que traiu Jesus, mas que o amava. O "mais instruído" dos discípulos cristãos, homem que "abandonou família e fortuna" para seguir o Mestre, eis a oportunidade para recordar um dos episódios mais dramáticos da Bíblia - a morte de Cristo.
Para Dinarte Branco, este foi um desafio irrecusável.
"A temática religiosa acompanha-me desde a infância, e mesmo sendo budista acredito que, no fundo, todas as religiões se tocam naquilo que é essencial. Todas correspondem a uma busca profunda do ser humano relativamente ao divino."
Para ver de quinta a sábado às 21h30, domingos às 16h00.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt