Manoel de Oliveira filma uma obsessão fatal
‘O Estranho Caso de Angélica’ é um filme antigo mas cheio de actualidade. Apesar de guardada na gaveta de Manoel de Oliveira, já desde o fim da II Guerra Mundial, a história chega agora aos cinemas e cruza épocas com o desprendimento de quem, aos 102 anos, tem a legitimidade de fazer o que bem lhe apetece no grande ecrã.
Há monovolumes de hoje na trama ambientada nos anos 50, há chuvas torrenciais a lembrar a tragédia da Madeira, há poluição sonora impensável há seis décadas, há uma crise que quase fala da entrada do FMI no país. Oliveira, na sua antiguidade, mantém o espírito vivo de sempre. E visionário...
Isaac (Ricardo Trêpa) é um judeu que foge do massacre da II Guerra Mundial e que se instala numa pequena cidade do Douro, numa pensão acolhedora e familiar. É homem de poucas falas e grande obsessão pela fotografia. Chamado a fotografar Angélica (Pilar Lopez), uma jovem acabada de falecer, o jovem apaixona-se por ela no momento em que a sua lente parece devolvê-la à vida. Só para ele.
Atormentado por visões – encenadas com efeitos especiais muito ao estilo dos idos anos 30 e 40 – da bela que o chama a voar pelos sonhos e céus, Isaac vai definhando na solidão deste amor imaterializado que materializa agora um sonho de Oliveira com quase 60 anos.
“Pensei em fazer este filme logo a seguir à II Guerra Mundial. Hitler tinha morto seis milhões de Judeus e eles estavam a ir para Portugal e para os Estados Unidos”, disse Manoel de Oliveira em conferência de imprensa no Festival de Cannes de 2010, onde o filme se apresentou em competição na secção ‘Un Certain Regard’.
Fê-lo agora. E fez bem. Sendo mais um daqueles filmes que provoca amores e ódios, ‘O Estranho Caso de Sngélica’ perde, sobretudo, no seu protagonista. A Trepa, neto do cineasta e seu actor exclusivo, falta-lhe expressividade sincera num papel de poucas falas, exigente mais no corpo do que nas palavras que não se dizem...
Visão poética, a sépia, da fotografia, paixão antiga de Oliveira que não descurou o romantismo musical. O piano ora feroz ora traquilo de Maria João Pires também tem ‘voz’ neste ‘estranho caso’...
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt