MEMÓRIAS DE COMBATE
“Vamos apresentar hoje aqui um livro com um título enigmático que depois se deixa perceber e muito bem, mas só lá para o meio... ‘Vinte anos e um dia’ era o tempo de prisão que qualquer comunista apanhava desde que se deixasse apanhar”, palavras de Mário Soares, na fundação que tem o seu nome e onde recebeu o autor, Jorge Semprún, amigo de há 20 anos e companheiro de exílio já lá vão 30.
Entre nós publicado pela Asa, a editora, antecipando o enigma do título e prevendo a preguiça do leitor, avança explicação do título logo na capa, onde se lê ainda que o mesmo foi distinguido como melhor romance espanhol de 2003, com o Prémio José Manuel Lara Hernández.
Facto curioso uma vez que se trata do romance de estreia na língua materna de Jorge Semprún que sempre escreveu em francês, salvaguardada a honrosa excepção dos escritos assinados sob pseudónimos, tais como, Federico Sanchez. O mesmo que ganha, neste romance, corpo de personagem e desengane-se quem para isto tenha já preparada explicação psicanalítica.
Analogia entre a realidade da clandestinidade do exílio e a ficção de personagem-fantasma da história, Federico Sanchez é, sobretudo, memória.
“Este é o livro da memória da Espanha oprimida e, simultaneamente, combativa contra a ditadura”, resumiu o escritor.
“Com este livro quis resgatar esta memória e também a língua espanhola. Depois de uma vida a escrever em francês, estava mais do que na altura de mostrar que também o sabia fazer em castelhano, inevitavelmente arcaico mas, castelhano”, prosseguiu.
‘SOMOS TODOS HISPANOS’
Mário Soares, que leu a versão original, confirma-lhe a valência da forma e do conteúdo e foi optimista e entusiasta que antecipou futuras leituras de futuros leitores.
“É um livro que, tenho a certeza, vão ler com paixão, até porque, com todas as idiossincrasias e vozes muito próprias, pertencemos todos a uma grande família. Somos todos hispanos”, arriscou o ex-Presidente da República.
Em resposta, Jorge Semprún recordou a emoção de “estar aqui” e a reserva “antes de aqui chegar”. Isto porque, quando Jorge Semprún soube que seria o nosso antigo Presidente da República a apresentar-lhe o livro em Lisboa, reagiu com um meio sorriso que, a significar algo, seria qualquer coisa como: “Só pode ser manobra publicitária da editora espanhola.”
Um desfiar de memórias, entre o anfitrião e o convidado (do exílio em França, nos anos 70) era previsível e revelou-se preferível à regra a que, por norma, obedecem acontecimentos como a apresentação de um livro. Foi o que aconteceu... e ainda bem.
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