Morte por encomenda

O telefone toca. Do outro lado da linha o costume: as empresas de sempre a tentarem impingir-nos mais um fabuloso produto, uma irresistível promoção, um tentador inquérito. Mas e se nos oferecerem a solução para os nossos mais tormentosos problemas?

18 de fevereiro de 2007 às 00:00
Morte por encomenda Foto: d.r.
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Foi assim com Luís Tinoco. Atendeu o telefone e, do outro lado, a morte – há tanto ansiada depois de um já de si mortífero desgosto amoroso – chamava. Ou melhor, chamava uma empresa de suicídios e um agente empenhado em propor a solução para a angústia de Luís. Mesmo que, para isso, tivesse de saltar de tentativa em tentativa (falhadas) para pôr termo à vida de tão bom cliente.

A ideia de tamanha loucura é do jovem realizador Artur Serra Araújo e é o ponto de partida de ‘Suicídio Encomendado’. O filme tem honras de abertura da Semana dos Realizadores do Festival de Cinema do Fantástico do Porto, Fantasporto. Na sexta-feira, dia 23, a história de Tinoco conta-se na estreia no grande ecrã de João Fino (Tinoco) que, a par do realizador Artur Serra Araújo, ensaia os primeiros passos na longa-metragem depois de uma breve parceria numa anterior curta do cineasta. “Concorremos ao apoio do ICAM (Instituto de Cinema, Audiovisual e Multimedia), ficámos perto mas não conseguimos. Foi uma aventura entrar neste filme sem apoios mas puxámos pela imaginação e fizemos das dificuldades desafios”, lembrou ao CM Artur Serra Araújo.

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Depois de três meses a rodar no Porto e em Trás-os-Montes em 2005, o resultado é um divertido “road movie” ao estilo de comédia negra de um jovem “que já queria morrer depois de um desgosto de amor”, antecipou o cineasta de 29 anos.

APELO AO SUCÍDIO É PROMOÇÃO

Até à estreia, Lisboa e Porto têm sido inundados de panfletos e mupis originais – outros dirão de mau gosto – que apelam ao suicídio e apresentam uma (fictícia) empresa especialista em mortes por encomenda. Uma das frases inscritas – “Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”– faz também parte do filme. “Não é uma brincadeira. É uma divertida campanha de promoção para chamar a atenção para esta comédia negra que envolve uma empresa especializada em suicídios”, explica Francisco Bravo Ferreira, da FBF, produtora do filme que ainda vai dar (mais) que falar...

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Uma leitura mais atenta dos panfletos desvenda outro apelo: “Traga um amigo e beneficie de um desconto de 50%. Garantia de Morte Certa”. Certa é a vertente humorística do filme. E o tema que a ninguém deixa indiferente.

Aos 29 anos, o cineasta portuense Artur Serra Araújo conta já com alguns prémios na curta mas bem sucedida carreira. Formado em Som e Imagem pela Escola das Artes da Universidade Católica, já fez duas curtas-metragens – ‘Uma Comédia Infeliz’ (2004) e ‘Frio’ (2005) – que conquistaram, entre outros, prémios nos festivais de Sergipe (Brasil), Espinho e Porto. ‘Suicídio Encomendado’, escrito e realizado por Artur, é a sua primeira longa-metragem.

27.ª EDIÇÃO TRAZ AO RIVOLI TRÊS GERAÇÕES DE PÚBLICO

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Uma manchete do Correio da Manhã, nos longínquos anos 80, despertou a Comunicação Social para uma ‘certa’ mostra de cinema fantástico que, na altura, dava os primeiros passos. Amanhã, 27 anos depois do Fantasporto Festival Internacional de Cinema Fantástico ter começado a ser um verdadeiro festival – agora menos terrorífico do que outrora –, o Fantas volta a juntar no(s) mesmo(s) palco(s) cineastas consagrados com estreantes.

Rossana Arquette, conhecida pelas suas interpretações em ‘Crash’ e ‘Doce Vingança’, vai ser uma das convidadas especialíssimas da 27.ª edição do evento, onde vai ser homenageada. Pelo menos assim garante Mário Dorminsky, director do festival que amanhã começa. O eterno ‘Elliott’ do ‘ET – O Extraterrestre’, Henry Thomas, que entrou mais recentemente em ‘Gangs de Nova Iorque’, também é presença garantida.

Já não tão certa é a deslocação ao Porto de Sean Young, a protagonista feminina de ‘Blade Runner’. O convite a Thomas e Young prende-se com a homenagem aos 25 anos de vida dos citados filmes.

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Durante 16 dias, o Teatro Rivoli, que vai ser o palco principal do evento – este ano mais concentrado naquele espaço e, assim, menos disperso pela cidade –, esquece a polémica em que tem estado envolto nos últimos meses e prepara-se para receber “um público que já vai na terceira geração”, conforme realça Dorminsky.

As três vertentes principais do festival mantêm-se. A competição em torno do cinema fantástico, a Semana dos Realizadores (que acolhe diferentes géneros cinematográficos) e o Orient Express, dedicado ao cinema oriental.

A produção portuguesa não é esquecida, estando representada em todas as suas facetas, incluindo a de documentário, com a projecção de ‘Olhar o cinema português’, de Manuel Mozos. Pelo meio, ainda há tempo para uma retrospectiva das cinematografias russa – que já há muitas edições não aparecia no Fantas – e grega e para uma homenagem a Marin Karmitz, produtor e realizador francês.

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No festival que tem a responsabilidade de passar filmes premiados em Cannes e Berlim, as honras de abertura e de encerramento cabem (a 4 de Março) a ‘O Labirinto de Fauno,’ do mexicano Guilherme del Toro, e ‘The Fountain’, de Darren Aronofksy, respectivamente.

DOCUMENTÁRIO

‘Olhar o Cinema Português’, do realizador Manuel Mozos, pretende percorrer a Sétima Arte portuguesa de Manoel de Oliveira a João César Monteiro, de Tino Navarro a Joaquim Leitão.

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CONCERTOS

O Fantasporto vai encerrar a 3 de Março com concertos das bandas Peaches, Buraka Som Sistema e Blind Zero no tradicional Baile dos Vampiros, em local ainda a definir.

RUSSO E GREGO

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A cinematografia russa, que há muito não aparecia no festival, e a grega, pouco conhecida, vão ser dois dos destaques do Fantasporto através de uma retrospectiva.

EQUIPA FANTAS

A organização do Fantas, constituída por oito pessoas, durante um ano frequentou festivais de cinema no estrangeiro e seleccionou um leque de filmes para a competição.

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TENDA EXTERIOR

A Movietown (Cidade do Cinema) é, segundo a organização, a grande novidade deste ano. Consiste numa tenda no exterior do Rivoli onde vão decorrer conferências e workshops.

CONVIDADOS

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A presença de figuras internacionais no Fantasporto ligadas à 7.ª Arte representou para a organização um investimento de mais de cinquenta por cento sobre o custo global do evento.

"O FANTAS NASCEU E VAI MORRER NO RIVOLI"

Mário Dorminsky, pai do fantas, acumula a organização do festival com o pelouro da Cultura da Câmara de Gaia. Recusa a ideia de o festival sair do Rivoli em 2008.

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Correio da Manhã – Vinte e sete anos depois da 1.ª edição qual é o objectivo do Fantas?

Mário Dorminsky – Continua a ser descobrir os grandes nomes do cinema e mostrá-los ao País.

– O que destaca no programa deste ano?

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– A tenda no exterior do Rivoli – a Movietown – e a presença de convidados internacionais ainda no activo, ligados ao cinema.

– Qual é agora a secção mais forte do festival?

– A Semana dos Realizadores. Aliás, desde que foi implementada o nosso público duplicou.

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– O Rivoli continua a ser o palco ideal para o festival?

– O Fantas nasceu e vai morrer no Rivoli. É o seu palco natural. Sendo a sala de visitas da cidade e a única preparada para o receber não faz sentido que seja noutro lado.

– Nem a privatização da gestão do teatro poderá pôr em causa que ali se realize em 2008?

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– Espero que a Câmara e a empresa que fique responsável pela gestão possam negociar para que seja possível a continuação, porque, enquanto evento, o Fantas é importante para a imagem da cidade. Acredito que a autarquia vá utilizar 16 dos 60 dias a que terá direito ao Teatro para acolher o festival.

– O seu nome estará sempre ligado ao cinema. Lembra-se do primeiro filme que viu?

– Foi o ‘Príncipe e o Pobre’, que vi com os meus pais no Teatro Sá da Bandeira, com quatro anos.

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– E qual é o filme da sua vida?

– Tenho dois: o ‘Blade Runner’, do Ridley Scott, que na minha opinião é um dos clássicos do cinema fantástico, e ‘O Mundo a Seus Pés’ do Orson Wells.

– Houve algum momento em que foi claro para si que a sua profissão tinha de passar pela cultura?

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– Não foi logo claro, porque na minha adolescência a cultura era entendida como a única alternativa para os tempos de lazer.

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