"Museu da Sucata" dá nova vida ao ferro velho e à comunidade no coração de Maputo

Gestor considera que objetivo do projeto é "mostrar que existe vida da sucata depois de ser transformada".

21 de julho de 2025 às 08:10
"Museu da Sucata" Foto: LUÍSA NHANTUMBO/LUSA
"Museu da Sucata" Foto: LUÍSA NHANTUMBO/LUSA
"Museu da Sucata" Foto: LUÍSA NHANTUMBO/LUSA
"Museu da Sucata" Foto: LUÍSA NHANTUMBO/LUSA
"Museu da Sucata" Foto: LUÍSA NHANTUMBO/LUSA

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No bairro do Chamanculo, em Maputo, um antigo jardim do Clube de Futebol Vulcano, nas traseiras do estaleiro da empresa Limetal, ganhou nova identidade como "Museu da Sucata", onde o ferro velho é reinventado em arte e instrumento de transformação social.

O espaço é conhecido nas redes sociais como "SucArte Vulcano", mas os visitantes apelidaram-no de "Museu da Sucata", local onde o ferro velho é recriado com criatividade, inclusão e esperança.

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"É o nome dado pelas pessoas que cá vêm e ficou porque é um museu", conta à Lusa Rui Paulino, 54 anos, gestor da empresa Limetal e mentor do projeto que "dá vida à sucata".

O objetivo é "mostrar que existe vida da sucata depois de ser transformada", refere Rui, no meio de várias esculturas feitas de metais reciclados, espalhadas por quase todo o quintal do "museu".

Na "SucArte" há várias obras expostas no chão, nas árvores, desde matraquilhos, mesas, cadeiras, animais, instrumentos musicais, há esculturas inspiradas no mar, como cavalos-marinhos e tartarugas, feitas a partir de sucata recolhida ou comprada localmente.

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O espaço artístico e cultural surgiu "na brincadeira", por volta do ano 2000, quando Rui e o seu antigo mecânico soldaram pequenas esculturas a partir de peças inutilizadas, num ofício que o arquiteto e empresário herdou do pai, que fundou a empresa em 1950.

Hoje, além de dar vida à sucata, Rui Paulino sonha também em dar uma melhor vida ao Clube do Vulcano, transformando-o numa estrutura polidesportiva que integre ciclismo, futebol e atletismo.

"O clube é o impulsionador deste projeto porque é a organização das pessoas, é a responsabilidade que cada um tem de ter para as coisas serem bem apresentadas. Acho que sem o clube isto não seria o que é (...) a ideia é montar uma coisa que não para, um clube a sério, de desportos (...) montar escolas de desporto, uma academia", diz o empresário, entusiasmado.

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O estaleiro transformado em galeria alberga 90 pessoas envolvidas nas várias atividades do projeto, a maior parte das quais antigos e atuais atletas do Clube de Futebol do Vulcano, tanto que se vê ao fundo do quintal o equipamento da equipa pendurado no estendal.

As obras do "museu" são feitas de sucata de carros, eletrodomésticos, material de escritório, louça, de fábricas de produção de bebidas e tudo metálico que se possa imaginar.

"Banheiras, panelas, máquinas, motores, estruturas metálicas, tudo que já desempenhou o seu papel de estrutura e já é descartado, porque o ferro tem um tempo útil de vida, depois é transformado em sucata e tudo que é sucata a gente processa", refere, lamentando as dificuldades para obtenção da matéria-prima.

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As peças eram também criadas a partir de sucata comprada em pequenas quantidades nos mercados locais, mas a instabilidade no fornecimento levou a empresa a alterar a estratégia.

"Criou-nos muitos problemas, então nós agora só trabalhamos com contratos sérios, com empresas grandes, mas ainda compramos sucata a individuais, com a condição de serem coisas bem organizadas", clarifica, fazendo também menção a dificuldades financeiras que reduziram de 120 para 90 o número de colaboradores.

Apesar das dificuldades, a ambição mantém-se firme: "desenvolver a comunidade através do clube e da arte", retratada também num edifício cujos três pisos, exceto a base, são feitos de metal.

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No cume do edifício, que funciona como centro social do clube, há um dragão feito à base de metal reciclado, que sinaliza o "museu" ao longe e é usado como ponto de referência do espaço, localizado no subúrbio de Maputo.

"O maior sonho é poder entrar aqui e ver os meus atletas e os meus amigos a desfrutar de um clube que funciona bem", diz Rui, que já abriu uma segunda galeria na avenida Mao Tsé Tung, na cidade de Maputo, com peças disponíveis ao público.

As esculturas metálicas estão também espalhadas em vários pontos da capital moçambicana, além do centro cultural do Chamanculo.

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O empresário queixa-se da falta de mercado para as obras em Moçambique, situação que atrasa o seu sonho de "desenvolver a comunidade do Chamanculo" e o Clube Vulcano através da vida que dá à sucata.

"Um clube requer muitos serviços à sua volta que podem ser transformados num apoio à sociedade e à comunidade à nossa volta", refere o responsável, para quem "tudo tem valor agora" e a "sucata parece ouro".

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