Música para agarrar
Aí está um disco para encher as medidas a gregos e troianos, para cruzar gerações, para nos pôr todos a ouvir grandes momentos de Poesia (Álvaro de Campos, Gedeão, Garrett, O’Neill, Bernardo Pinto de Almeida, Ary dos Santos, Manuel Alegre, Eugénio de Andrade, Florbela Espanca e Camões) revisitados por um criador de música ambiente (Elvis Veiguinha, Rocky Marsiano, Beto Medina, Sam, The Kid, Camarão) e por uma voz que tanto pode optar pela fala como pelo canto (Melo D, Sofia Morais, Marta Dias, Margarida Pinto Correia, Kika, Pac Man, a já revelação Marta Hugon).
Posto assim, parece simples. Não deve ter sido: há, entre tanta gente envolvida, uma coerência de estilo, um apuro sonoro e uma modernidade carregada de pormenores (a flauta de ‘Barca Bela’, quase Bossa, o trompete de ‘Há Palavras Que Nos Beijam’, um dos momentos mais inspirados, os geniais apontamentos da guitarra de Ricardo Rocha em ‘Mudam-se Os Tempos’), que vale momentos comoventes, convincentes, coniventes.
O respeito pela palavra não implica a reverência: veja-se a abordagem de Pac Man à ‘Trova do Vento Que Passa’. A liberdade de ambientes não significa que, por um momento, as palavras passem para segundo plano. ‘Composto de Mudança – Música Para Se Deixar Levar’, patrocinado por uma empresa mas de venda aberta ao público, é irresistível. Parafraseando O’Neill (e aplaudindo o trabalho de cozinhar tudo isto, que cabe a Elvis Veiguinha), “há discos que nos beijam”. Este é um deles.
DISCOGRAFIA CORRELATIVA
‘A Música Em Pessoa’ (1985)
‘Entre Nós E As Palavras’, Os Poetas (1997)
‘Poesia EnCantada’ (2003)
‘Poesia EnCantada: Volume 2’ (2004)
‘A Naifa’ (2004)
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