Não quero perder o medo de escrever
Mia Couto, escritor. Ele é um dos ‘escritores de ouro’ da Caminho, foi finalista do Prémio União Latina e no dia 18 vai apresentar o novo romance.
Correio da Manhã – Que metáfora é esta a que remete o título, ‘O Outro Pé da Sereia’?
Mia Couto – É uma história de várias viagens de alguém que procura o que não é possível encontrar, desde logo o missionário português que se propõe evangelizar todo um continente, até outras viagens que têm sempre um certo destino que mais não é do que uma certa mistificação da nossa identidade e essa é a sugestão mais metafórica do título. Depois, há outra mais directa, relacionada com a religiosidade, de desencontros e de não ditos que resultam de as pessoas não falarem só em línguas diferentes mas também em lógicas diferentes.
– Aforismos lembram histórias da tradição oral. Usa-as como fonte ou inspiração?
– As duas coisas. Eu vivo num país onde a oralidade é dominante e, insisto sempre neste ponto, ela não é a ausência de escrita, é outro raciocínio, outra sensibilidade... É, sobretudo, uma outra ligação a coisas que não são visíveis para os que funcionam só no domínio da escrita. E aí eu posso actuar como criatura de fronteira porque fui embebido nessa sensiblilidade mas formado com outra lógica, o que me permite funcionar como um tradutor dessa linguagem...
– Mas reinventa a linguagem, inventa as palavras...
– Essa preocupação de retrabalhar a linguagem já foi mais intensa, entretanto, quis colocar--me em causa e desafiar-me a escrever com maior liquidez, onde esses neologismos aparecessem mais pontuadamente... Este é o livro de uma certa ruptura de um percurso. A minha preocupação era que este lado mágico, quase poético, de alguma estranheza em relação à escrita se perdesse ou confundisse com diversão.
– E nunca a sua escrita esteve tão próxima da poesia desde que se estreou com ela...
– Tocou no ponto e, apesar da distinção entre prosa e poesia me ultrapassar, digo-lhe, e faço-o pela primeira vez, que a par do que tenho escrito em prosa, continuei a escrever poesia... Será o meu próximo livro e sairá ainda este ano ou já no próximo.
– Finalista do Prémio União Latina como é a sua relação com prémios e distinções?
– Penso que é bom tê-los mas não escrever para os ter. É uma tentação namorar prémios, seja pelo prestígio, seja pelo valor monetário e seria uma hipocrísia afirmar que lhes sou imune mas... Não estou à espera de nada nunca e não quero perder o medo de escrever e publicar como se fosse a primeira vez!
António Emílio Leite Couto – mais conhecido por Mia Couto desde que o irmão menor assim o rebaptizou – nasceu em 1955 na Beira, Moçambique, onde vive. Estudou Medicina, exerceu Jornalismo, formou--se em Biologia, leccionou Análise Ambiental e neste desassossego diz residir o seu sossego... Prémio Vergílio Ferreira 1999 pelo conjunto da sua obra, estreou-se em 1983 com poesia e, depois deste romance, a ela regressa.
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