Não venha tarde, dona Beatriz!

Cada vez que pedia ou deixava a chave do quarto n.º 600 na portaria do Tivoli Lisboa, onde habitou nos últimos 30 anos, Beatriz Costa “sorria e tinha sempre uma palavra a dizer” ao chefe de ‘concièrge’, Américo Nunes, de 63 anos, 47 passados no hotel.

16 de dezembro de 2007 às 00:00
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Com o correr do tempo, ele e outros funcionários da última casa da actriz de ‘Aldeia da Roupa Branca’ e ‘Canção de Lisboa’ foram criando “mais intimidade” com aquela senhora pequenina (1,53m), de franjinha, que “adorava contar e ouvir anedotas” e que era, afinal, “um símbolo do Tivoli”, onde viveu até aos 88 anos. Faleceu no seu quarto de sempre, a 15 de Abril de 1996.

Conceiçãozinha, que limpava os aposentos do piso seis, era a empregada favorita de Beatriz. Foi por causa dela e do sossego da ala lateral norte do hotel que a actriz escolheu o n.º 600, com vista parcial para a Av. da Liberdade, a mais nobre da capital.

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Quando saía à noite, Américo atrevia-se: “Não venha tarde, dona Beatriz!” A “vedeta” respondia, divertida: “Ah seu sacana!”, recorda o “amigo” da portaria que a viu passar tardes “a escrever os seus livros no lóbi do hotel, entre eles ‘Nos Cornos do Mundo’ e ‘Quando os Vascos eram Santanas’, e a conversar com amigos como os fadistas Carlos do Carmo e Hermínia Silva.

Por causa de Beatriz Costa os brasileiros ainda hoje escolhem o Tivoli. Fafá de Belém, Gal Costa e Elis Regina pernoitaram ali várias vezes. Sabiam da fama da ‘Saloia’, nome carinhoso pelo qual era conhecida Beatriz Conceição, nascida em Mafra e que aos 15 anos se estreou na peça ‘Chá e Torradas’, no Teatro Éden.

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O seu nome atravessou fronteiras – a actriz privou com Salvador Dali, Marlene Dietrich, Pablo Picasso, Jorge Amado e Edith Piaf – e marcou presença no Brasil, onde conheceu o único marido (1947-1959), Edmundo Gregorian, poeta, escritor e escultor que a levou a correr o Mundo. Por cá, conversava à mesa da ‘Brasileira’ com Almada Negreiros, Aquilino Ribeiro e Vitorino Nemésio, entre outros.

De Gregorian não havia fotos no quarto 600, aposento pequeno com “a cama encostada à parede para ter mais espaço para as coisas”, como lembra Américo Nunes. Entre alguns retratos de Beatriz Costa destaca-se uma prateleira “feita de propósito” para a ‘Ti Bi’ (como era tratada entre os funcionários do hotel) colocar os bibelots fetiche que coleccionava: os burros.

Na sexta-feira passada Beatriz Costa faria cem anos, mas é amanhã que o hotel assinala a efeméride com o lançamento de um livro de fotografias e o arranque de uma semana gastronómica com as iguarias preferidas da actriz que há três anos dá nome ao restaurante do Tivoli.

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O lóbi do Hotel Tivoli – onde Beatriz Costa escreveu os seus livros e onde recebia amigos como Carlos do Carmo e Hermínia Silva – e o restaurante que há três anos foi baptizado com o seu nome, que amanhã inicia uma semana gastronómica com os pratos preferidos da actriz.

FLORES PARA BEATRIZ

Hoje realiza-se uma romagem da casa onde a actriz nasceu, na Charneca (concentração às 10h00) ao cemitério onde está sepultada, na Malveira (14h00).

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HOMENAGEM EM MAFRA

A Câmara de Mafra assinala o centenário do nascimento com uma exposição de figuras de barro que estará patente até Abril na Casa da Cultura da Malveira.

ÁLBUM DE RETRATOS

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‘Beatriz Costa: Álbum de Retratos’ é o livro de fotografias da actriz, muitas desconhecidas, a lançar amanhã (18h30) por Carlos Albertos Damas no Hotel Tivoli.

MENU ESPECIAL

Sopa de feijão encarnado com legumes, jaquinzinhos e arroz-doce são alguns dos pratos favoritos da actriz no menu especial ‘Memórias de Beatriz Costa’ preparado pelo chefe Santos para a semana de 17 a 21 deste mês no restaurante do Hotel Tivoli.

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Ícone da cultura popular portuguesa, Beatriz da Conceição nasceu em Mafra a 14 de Dezembro de 1907 e morreu em Lisboa a 16 de Abril de 1996. Actriz de teatro e cinema, estreou-se em 1923 na revista ‘Chá e Torradas’ e três anos depois no cinema em ‘O Diabo em Lisboa’, de Rino Lupo. Conhecida pelo corte de cabelo com franjinha tem em ‘Alice’, a filha de António Silva em ‘A Canção de Lisboa’ (1933), de Cotinelli Telmo, o seu papel mais famoso.

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