Ninguém é aquilo que sonha ser
O Teatro do Vestido estreia amanhã, no Chiado, em Lisboa, a sua quinta produção. 'Exaustos' é o retrato de uma geração que confronta as suas memórias de infância e adolescência com a frustração das suas vidas actuais. Para ver até 15 de Maio.
"Não somos o que sonhamos ser", diz-nos uma actriz, à entrada da porta nº 13 da Rua António Maria Cardoso, mesmo ao pé do Teatro S. Luiz. Depois conduz-nos até ao terceiro andar do edifício, toca à porta e deixa-nos entrar num apartamento vazio, onde há roupas e sapatos velhos espalhados pelo chão.
Sentamo-nos em cadeiras dispostas em volta da sala, enquanto três actrizes - Inês Rosado, Joana Craveiro e Tânia Guerreiro - vão dizendo, às vezes gritando, um texto por onde passam as suas memórias de infância e adolescência mas também a perplexidade de viver num país, Portugal, que "está sempre à beira do fim, sempre em crise" e que, contra todas as expectativas, nunca rebenta.
O texto, da autoria das próprias, tem um cariz pessoal mas nem por isso intransmissível. Pelo menos para a geração que tem agora entre 30 e 40 anos. Quantos de nós recordamos as férias grandes, passadas inevitavelmente na praia, a queimar a pele ao sol durante dias intermináveis? Quantos de nós lembramos com saudade gelados que nunca mais tiveram o mesmo sabor?
Claro que nem todas as experiências evocadas são agradáveis. Não há infâncias perfeitas e muito menos adolescências ideais. Mas nesses primeiros anos de vida, há sempre esta utopia: um dia habitaremos um sítio ideal, cheio de possibilidades, e teremos uma vida intensamente preenchida, feliz, realizada. Quem o não sonhou?
'Exaustos' tem tanto de egocêntrico e exibicionista quanto de fascinante. Se por um lado o texto anda em volta do umbigo das criadoras, por outro há qualquer coisa de entusiasmante no facto de três actrizes se exporem tanto na tentativa de procurar alguma empatia com os outros.
O melhor do espectáculo é o texto, que consegue momentos francamente bons, não só pela pertinência dos temas mas também pela honestidade com que são abordados. O mais fraco é a forma, pouco sofisticada, como as actrizes decidiram veicular esse conteúdo. A esse nível, ver 'Exaustos' é quase como assistir a uma sessão de terapia de grupo. Gritos e gente a esponjar-se no chão, por muito autêntico que seja, deixa sempre no espectador uma confrangedora sensação de voyeurismo.
Entretando, durante todo o espectáculo, há sempre um músico presente. Gonçalo Alegria, que arranca da sua guitarra eléctrica sons propositadamente desarmónicos - a banda sonora ideal para um espectáculo que se quer espelho de uma vida urbana esquizofrénica e muito pouco satisfatória.
Em cena no Next - Centro de Experiências Artísticas
Rua António Maria Cardoso, nº 13, 3º
De 28 de Abril a 15 de Maio
De quinta a domingo, às 22h30
Bilhetes de 7,50 a 3 euros
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