O senhor da discórdia
A Câmara do Porto escolheu os meios de Comunicação Social para dar a notícia de que será o encenador e produtor Filipe La Féria a gerir o Teatro Municipal Rivoli a partir de 1 de Maio de 2007 até 2011. A afirmação foi feita ao CM por Ada Pereira, responsável pela Plateia/Artes Cénicas, uma das cinco concorrentes à gestão daquele espaço cultural.
“Soubemos pela Comunicação Social, não tivemos da parte da Câmara qualquer notificação e fundamentação do resultado do concurso, o que é exemplificativo da forma como o processo foi gerido”, declarou Ada Pereira.
Aliás, a notícia de que La Féria saiu vencedor do concurso já começou a ser polémica no Porto e em Lisboa, com produtores e encenadores a manifestarem-se contra esta escolha. Francisco Alves, director do Teatro Plástico e um dos rostos da ocupação do teatro aquando do anúncio da sua privatização, afirma que a decisão já estava tomada desde o início e que o concurso foi uma “ilusão democrática”. Ada Pereira corrobora desta opinião e afirma que as linhas orientadoras para o novo modelo de gestão do Rivoli foram construídas à medida de La Féria.
“O documento previa apenas quatro grandes produções anuais para a sala grande e mais quatro para a sala. Isso pressupõe espectáculos de longa duração que, dos concorrentes, só La Féria poderia assegurar”, afirmou a responsável da Plateia, acrescentando que, assim, “não se apoia a diversidade cultural que é um dos princípios dos teatros municipais”.
A Câmara, que anunciará a escolha em reunião extraordinária a realizar este mês, justificou em comunicado que La Féria foi o autor da “proposta que melhores condições oferece para assegurar a gestão” do teatro, pois garante “uma programação apelativa de elevada qualidade e mobilizadora de grandes públicos para a Baixa do Porto”.
Da programação sabe-se apenas que o primeiro espectáculo será uma megaprodução sobre Carmen Miranda – a portuguesa que fez furor no Brasil e chegou a Hollywood – e que, no final de 2007, está prevista a estreia de ‘Um Homem do Porto’, que supostamente evocará a vida do antigo primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, falecido em 1980.
LISBOA TAMBÉM CRITICA
Almeno Gonçalves, da produtora Sola do Sapato, que actualmente gere o Teatro Mundial, disse que a escolha de La Féria não é, nem de longe, a melhor solução para o Rivoli. “Nós costumávamos levar lá as nossas produções e agora não me parece que isso vá voltar a acontecer”, confessou. “Só espero que outros teatro municipais não sigam o mesmo caminho...”
Opinião semelhante tem o actor e encenador Paulo Matos, que também mostrou reservas quanto à decisão camarária. “O Rivoli sempre funcionou como anfitrião de projectos de todo o País e isto é reduzir o seu papel. Não sou contra o La Féria ir para o Porto, mas deveria ir para recuperar um outro espaço. O Sá da Bandeira, por exemplo...”, especificou.
ENCENADOR RECUSA FALAR AGORA
Contactado pelo CM, La Féria não quis comentar a decisão da Câmara do Porto nem falar sobre futuras produções, remetendo-nos para um comunicado onde se pode ler: “Apesar da deliberação do júri nos ter sido favorável, a cedência está ainda dependente da aprovação pelo Executivo e pela Assembleia Municipal do Porto, pelo que teremos de aguardar pela deliberação deste órgão, mas estamos confiantes de que não deixará de secundar a opinião do júri. Apesar da qualidade dos outros concorrentes, que desde já saúdo, estamos certos de que a nossa proposta é a que mais serve os interesses da autarquia e do grande público portuense e estamos convictos de que conseguiremos revitalizar este espaço cultural da cidade do Porto.”
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