Onde acaba o cinema e começa a política
O homem é naturalmente um animal político.” À abrangência das palavras de Aristóteles não escapam realizadores como Francesco Rosi, Costas Gravas, Oliver Stone ou Spike Lee, mas há quem se dê ao trabalho de catalogar os seus filmes sob o termo ‘cinema político’ para assim os isolar, deixando-os em campo aberto. Tornam-se alvos mais fáceis.
O inglês Ken Loach, que o ‘The Times’ reconheceu como “pior do que Leni Riefenstahl” – a genial criadora dos mais poderosos documentários da propaganda nazi – e que mereceu do ‘Daily Telegraph’ o epíteto de “sanguessuga”, por recorrer a fundos públicos para pagar “os seus filmes repulsivos”, entende a política como uma força natural indissolúvel da arte, não fosse ele socialista e membro da coligação anti-guerra Respect.
‘Brisa de Mudança’ abarca momentos determinantes da História da Irlanda, nomeadamente os acontecimentos que levaram à assinatura do Tratado Anglo-Irlandês, em 1922, a independência, sob termos, da maior parte do território. Ao focar a brutalidade da ocupação inglesa e questionar o compromisso que o nova nação aceitou – os sonhos de uma república socialista morrem para dar lugar, nas palavras de um dos personagens, a um “charco infestado de padres” –, Ken Loach revela-se, mais uma vez, um animal político.
Quando venceu o Festival de Cannes, o seu triunfante murro no ar foi maliciosamente interpretado como “uma saudação comunista” por um colunista do ‘The Guardian’. Os ataques da Imprensa de Rupert Murdoch e dos jornais sob influência do partido ‘Tory’ foram devastadores. “Quem escreve estas coisas dá conforto ao fascismo”, respondeu o realizador. Na política, como na guerra, vale tudo, até jogar nos dois lados. O ‘The Sun’ exultou os ingleses a não verem “o filme mais pró-IRA de sempre”, enquanto a edição irlandesa dava vivas à vitória em França.
No meio de tanta convulsão, ‘Brisa de Mudança’ passa por politicamente ou artisticamente inspirado? Talvez a resposta esteja escondida noutra pergunta. Existem filmes apolíticos? Mesmo os típicos produtos de Hollywood, ostensivamente superficiais na promessa de puro entretenimento, cumprem uma função política.
Loach diria que promovem uma visão liberal dos EUA e fazem a propaganda da sociedade de consumo e do capitalismo como sistemas universalmente aceites. São os mesmos que transformaram os nativos norte-americanos nos ‘maus’ dos ‘westerns’.
Para Loach, quem ‘ocupa’, seja a Inglaterra na Irlanda, os EUA no Iraque ou Israel no Líbano, deveria carregar esse ónus.
Há 40 anos que Ken Loach faz filmes social e politicamente relevantes, mas a sua demanda começou na televisão. ‘Cathy Come Home’, de 1966, levou à criação de uma instituição de ajuda aos sem-abrigo. Nascido em Nuneaton, Inglaterra, Loach estudou Direito em Oxford mas interessou-se mais pelos palcos do teatro universitário e pela realização.
O período áureo da carreira nos anos 90 com ‘Riff-Raff’, ‘Hidden Agenda’ e ‘Raining Stones’, os dois últimos vencedores do prémio de júri de Cannes. ‘Brisa de Mudança’ rendeu a Palma de Ouro, a primeira para o Reino Unido desde ‘Segredos e Mentiras’, de Mike Leigh (1996).
O IRLANDÊS RETORNADO
Loach é um cineasta de pouca predisposição para trabalhar com actores consagrados. O irlandês Cillian Murphy ainda não é uma estrela internacional, mas os olhos azuis são cada vez mais reconhecíveis.
Para trás ficaram a estreia em ‘Quando’ e a revelação em ‘28 Dias Depois’, de Danny Boyle, com quem voltou a trabalhar em ‘Sunchine’, ainda em pós-produção. Papéis secundários em ‘Cold Mountain’ e ‘Rapariga Com Brinco de Pérola’ e os vilões em ‘Red Eye’ e ‘Batman – O Início’ consolidaram-no em Hollywood mas não o convenceram a ficar. Regressou a casa para filmar ‘Breakfast on Pluto’com Neil Jordan e ‘Brisa de Mudança’.
Loach parece mais preocupado em passar a mensagem política do que em criar uma ligação entre público e personagens, mas Cillian Murphy e Padrac Delaney fazem um honrado esforço para não desaparecerem na trama do realizador. Liam Cunningham, como maquinista de comboios tornado activista, apanha muitos dos melhores discursos.
A escrita de Paul Laverty perde-se no formato convencional de um drama familiar com dois irmãos em lados opostos de um conflito político e militar que nos surge em forma de lição de História. Pelo meio há um trivial romance enfiado à pressão. Loach não resiste ao estereótipo do vilão e pede ao público para odiar os brutos e sanguinários ingleses.
Título original: ‘The Wind That Shakes The Barley’
Realizador: Ken Loach
Argumento: Paul Laverty
Intérpretes: : Cillian Murphy (Damien), Padraic Delaney (Teddy), Liam Cunningham (Dan), Gerard Kearney (Dunica), William Ruane (Gogan)
O argumentista Paul Laverty não se poupou na pesquisa para uma fiel reconstituição histórica, mas na cena da igreja, homens e mulheres estão lado a lado. Na Irlanda dos anos 20, sentavam-se separados.
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