Paulo Filipe Monteiro: “Procuro o ator que não se nota que está a representar”

'Zeus' está nas salas. Conta a história do presidente-escritor Manuel Teixeira Gomes.

17 de janeiro de 2017 às 20:59
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Como e quando nasceu o seu interesse pela figura de Manuel Teixeira Gomes?

Estou a trabalhar neste filme há oito anos. O que começou por me interessar na figura foi o gesto, inverosímil, de largar tudo: a presidência; a coleção de arte; a vida elegante que sempre tinha tido… Partiu no primeiro barco, no cargueiro ‘Zeus’, sem saber sequer para onde ia. Este gesto desmedido seduziu-me imenso. Comecei a investigar sobre a personagem e outras coisas foram vindo…

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É uma figura ímpar da nossa História…

É uma figura ímpar no Mundo. Um escritor de literatura erótica que se torna Presidente da República. Onde se viu um caso destes? E depois a sua sensualidade, a sua liberdade, a sua coragem… Houve uma série de temas que se foram juntando e que me fascinaram. A atração pelo Magrebe, em contraponto à atual diabolização do Islão. Até as crises financeiras que marcaram a sua presidência e o combate à especulação da banca – tudo isso é de uma enorme atualidade.

Há muita especulação em torno da sexualidade do Manuel Teixeira Gomes. Foi um tema que o preocupou?

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Não me preocupou, mas interessou-me. O filme não foge ao tema. Mas também não é caso para escândalos. Era um homem com uma grande sensualidade – costumava dizer que isso era próprio dos algarvios, por causa da herança árabe. Nos seus escritos eróticos tanto falava nos corpos das mulheres como nos dos homens. Isso valeu-lhe dissabores quando chegou a Presidente. Levaram as obras completas para o Parlamento, para lerem as passagens mais picantes, e correu o boato sobre a homossexualidade dele.

Decidiu colocar isso no filme.

A passagem mais comprometedora de todas pu-la no filme. Pus o inimigo do Teixeira Gomes, o Cunha Leal, a ler essa passagem. O filme não esconde isso. Simplesmente, ao fim de oito anos de pesquisa, a minha sensação é a de que ele nunca praticou.

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O Teixeira Gomes nunca praticou a homossexualidade?

É a minha convicção. Que tinha essa sensibilidade mas que havia ali um tabu para passar à prática. Quando o jornalista Norberto Lopes, no fim da vida do Teixeira Gomes, o foi entrevistar à Argélia e lhe colocou a questão, ele soergueu-se da cama, indignado. Cheguei a pôr a hipótese de que teria ido para o Norte de África por causa dos rapazes…

É o que muitos sugerem…

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Não seria caso único. O André Gide descobriu na Argélia, justamente, a sua homossexualidade. Mas o Teixeira Gomes era um homem ‘à femmes’, sempre com muitas paixões, muitas mulheres. Só que não se coibia, nos seus escritos, de ser livre. E como tinha essa sensibilidade homoerótica não tinha problemas em escrever sobre o assunto. Mas na vida de homem dele, não me parece que tenha praticado.

Demorou tanto tempo a concretizar este projecto por dificuldade em encontrar financiamento?

Não. Demorei oito anos porque havia muita pesquisa a fazer. Mesmo na parte portuguesa este período do fim da Primeira República é pouco estudado. A pesquisa da parte argelina da vida do Teixeira Gomes foi ainda mais difícil, porque nem mesmo os biógrafos dele alguma vez lá foram. Foi difícil escrever um guião sobre um homem tão sozinho, um homem que se isolou no Norte de África.

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Esteve na Argélia?

Sim. Em 2010 fui para Bugia, a cidade onde ele esteve, e consegui encontrar pessoas, velhotes que ainda se lembravam do tempo do Teixeira Gomes, consegui reconstituir a vida do nosso protagonista argelino, o empregado do hotel onde ele ficou e que o ajudou muito quando estava muito velhinho. Falei com os filhos desse homem. Depois, a montagem de um filme de época é sempre complicada… Parece um filme de grande produção, mas na verdade foi feito com meios modestos.

Teve um milhão de euros para fazer ‘Zeus’?

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Sim. Um milhão: 600 mil portugueses e 400 mil argelinos. Não é muito para fazer um filme de época. Tivemos de filmar a um ritmo duas ou três vezes superior ao que é habitual e razoável. Mas não se nota muito, acho eu.

Como escolheu o elenco? Foi para si óbvio que o Sinde Filipe iria fazer de Manuel Teixeira Gomes?

Sou ator e encenador, conheço muito bem os meus colegas. Foi fácil encontrar alguns elementos, para outros papéis fiz audições. Sou muito exigente a nível das interpretações, portanto fiz audições até encontrar as pessoas certas. O Sinde foi uma pessoa certa. Hesitei na questão das idades. Punha o homem nos 65 anos, quando parte de Portugal? Ou nos 81, que é quando morre? O Sinde não é pequeno nem franzino como era o Teixeira Gomes, mas em boa hora o escolhi porque tem uma interpretação esmagadora. O Eduardo Lourenço disse que ele é o nosso Mastroiani. A distinção, a elegância, a inteligência… O que este filme vai revelar é um Sinde que há muitos anos não se vê: de uma sensibilidade extrema, com imensas cambiantes.

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O restante elenco foi escolhido com que premissas? O que procura num ator?

Pesquiso muito sobre uma nova forma de representar. E acho que se deve procurar uma nova forma de representar tanto nos palcos como no cinema. Uma presença de outro tipo… O que procuro é o ator que não se nota que está a representar. O ideal é que pareça que estamos a filmar um documentário. Como se a câmara estivesse ali a filmar pessoas que existem mesmo e não atores que decoraram um texto. E há outra coisa: gosto quando os atores fazem uma espécie de dança… Diz-se que são precisos dois para o tango. Atores que se escutam e improvisam um pouco. Gosto de atores que saibam escutar e interagir com os outros.

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