“Pinochet deu-me uma gota de amargura”

António Skármeta veio a Lisboa apresentar ‘Um Pai de Filme’ (Teorema), novo livro do escritor chileno conhecido por ‘O Carteiro de Pablo Neruda’

15 de novembro de 2010 às 00:30
António Skármeta, escritor, Chile, Mineiros Foto: Vasco Neves
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Correio da Manhã – ‘O Carteiro de Pablo Neruda’ foi uma bênção ou condicionou demasiado a sua carreira literária?

 

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Antonio Skármeta – É uma bênção e não me condicionou em nada. Os meus livros publicam-se em muitos países e cada um tem a sua identidade própria. Espero que ‘Um Pai de Filme’ agrade tanto aos portugueses quanto ‘O Carteiro de Pablo Neruda’.

- Fizeram-se mais de 100 versões para teatro de ‘O Carteiro’, bem como o filme e a ópera com Plácido Domingo no papel de Neruda, que tem a estreia europeia a 8 de Dezembro, em Viena. É um dos poucos escritores que não se queixam das adaptações das suas obras...

- Tive sorte, mas também fiz a minha sorte, pois sempre que me propõem adaptar um livro decido com base no nome do realizador. Michael Radford (‘O Carteiro de Pablo Neruda’) e Fernando Trueba (‘A Dança da Vitória’) fizeram criações maravilhosas. E na ópera... Plácido Domingo! Vi a estreia mundial em Los Angeles e foi um momento de intensa felicidade.

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- É-lhe indiferente que para muitos seja conhecido apenas como o escritor que deu origem ao filme com Massimo Troisi? 

- Não concordo consigo. O meu romance mais amado pelo público e pelos críticos é ‘A Boda do Poeta’. Obteve o Prémio Medicis em França e o Grinzane Cavour em Itália. Quem não o conhece também ficará surpreendido ao ler ‘Um Pai de Filme’. Gostaria muito de mostrar aos portugueses que sou um escritor versátil. 

- Tal como ‘O Carteiro de Pablo Neruda’, a acção de ‘Um Pai de Filme’ decorre numa localidade pequena. Sente-se mais confortável a escrever sobre aldeias do que sobre as grandes cidades? 

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- Sinto-me bem em qualquer lado. Estudei e fui feliz em Nova Iorque e em Berlim, onde fui embaixador. As grandes metrópoles atraem-me mas também gosto de beber um copo de vinho de vinho numa aldeia perdida no mapa e ficar horas a ouvir histórias. Cada livro pede-nos um ritmo e uma atmosfera distinta para ser autêntico. Em ‘Um Pai de Filme’ teve vontade de fugir do ruído ensurdecedor da falsa globalização. Vou atrás do silêncio das nostalgias e das emoções que ainda não foram contaminadas. 

- Disse numa entrevista: “Tive um pai de quem gostei muito. Era muito bom e generoso.” A vida real não foi a inspiração para ‘Um Pai de Filme’, história de um filho abandonado que, devido a essa experiência, transforma-se praticamente no pai de todos os outros.

- Aos 16 anos, quando disse ao meu pai que queria ser escritor, ele não me mandou ao psiquiatra e em vez disso abraçou-me e deu-me dois fortes beijos nas bochechas. Era um anjo. 

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- Seria um escritor diferente se Augusto Pinochet não tivesse existido?

- Não teria relativizado a minha fé e confiança total no ser humano. Deu-me uma gota de amargura que até hoje convive com a minha alegria. Tanto na vida como na obra.

- O facto de muitos escritores chilenos continuarem a viver fora do país após o fim da ditadura é só uma coincidência?

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- O Chile não acertou as contas com os escritores. Têm de passar pelo filtro pedante da comunicação social. Mas o povo tem-lhes carinho e lê-os com atenção, sem se deixar influenciar por sábios autoproclamados. Pablo Neruda e Gabriela Mistral também sofreram com o ressentimento local.

- Pensa que o resgate dos mineiros pode substituir as figuras de Allende e Pinochet na memória colectiva mundial sobre o Chile? 

- Não. Depois do resgate, a vida quotidiana continua difícil no Chile. [O presidente] Piñera deve saber que uma andorinha não faz a Primavera. Não se governa o país exportando imagens. Governar é criar igualdade de oportunidades para as pessoas e o Chile ainda está longe de seguir esse caminho. 

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- A unidade nacional em torno dos mineiros mudou algo no seu país?

- Unidade não é sinónimo de esquecimento. Bons sentimentos temos todos. Agora chegou o momento de fazer boas obras: a educação e a saúde esperam acções de verdade e não só propaganda.

- É verdade que escreveu canções com o brasileiro Toquinho e planeia cantá-las?

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- Eh pá! Cantar não: apresentar, que é diferente de cantar.

- Fernando Trueba estreou ‘A Dança da Vitória’ no cinema. Quem seria o realizador ideal para adaptar ‘Um Pai de Filme’? 

- Aceito sugestões para o meu e-mail: cordillero@gmail.com.

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PERFIL

Antonio Skármeta, neto de imigrantes croatas, nasceu há 70 anos no Chile, de onde saiu em 1973 devido à ditadura de Pinochet. Autor de vários romances, tornou-se embaixador na Alemanha em 2000.

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