Poeta à margem vai ser reeditado

A editora Assírio & Alvim vai, brevemente, reeditar ‘O Ar da Manhã’, um dos dois únicos livros do poeta António Gancho, que morreu na noite do último dia de 2005.

05 de janeiro de 2006 às 00:00
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O lançamento da obra, actualmente esgotada no mercado, já estava previsto mas agora vai servir para lembrar um poeta que passou quase toda a sua vida em instituições psiquiátricas, “uma figura que não foi conhecida em vida mas, esperamos, o seja após a morte”, disse ao CM António Lampreia, da editora detentora dos direitos dos livros.

Gancho foi um poeta que “passou à margem”, recordou o editor, acrescentando: “Apesar de apenas ter editado duas obras – ‘O Ar da Manhã’ (1995) e a novela erótica ‘As Dioptrias de Elisa’ (1997) –, era conhecido por quem gosta de poesia”.

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A poesia de Gancho, que foi declarado esquizofrénico aos 20 anos, “não se integra em nenhum movimento nem escola. É uma poesia muito vivida, intensa e com muita tensão interior. Era, assim, como ele via a sua vida”, comentou António Lampreia.

De uma “linguagem obsessivamente repetitiva, quase minimal” (ver caixa), os seus poemas revelam “um certo erotismo latente, que reflectia o que Gancho desejava ter: uma família e filhos”, declarou.

Segundo o editor, o poeta, que passou 45 anos em instituições psiquiátricas, era uma “pessoa fechada e complicada de tratar à primeira aproximação. Tinha muita ansiedade em ter amigos, mas não tinha essa facilidade”.

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António Gancho nasceu em Évora em 1940. Aos 20 anos, e após uma tentativa de enforcamento, foi internado no Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos. Passou depois por várias instituições psiquiátricas até ser colocado, em 1967, na Casa de Saúde do Telhal, em Mem Martins, Sintra, onde viria a morrer. Os seus poemas foram publicados, pela primeira vez, numa antologia de poesia contemporânea, ‘Edoi Lelia Doura, organizada por Herbert Helder (1985).

No meu reino podes viver/que eu deixo-te viver/podes morrer que eu deixo-te morrer/podes sofrer e podes enlouquecer/podes-me amar/podes matar/podes morrer/e podes enlouquecer./no meu reino não há nada a fazer/amarmo-nos é que pode ser/tu não queres fazer sofrer/tu não podes/podes morrer./no meu reino é assim/tudo o que pode ser. ‘O Ar da Manhã’, p. 127 (Assírio & Alvim, 1995)

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