Preciso ficar cá mais tempo

Maria Rita, cantora brasileira, filha de Elis Regina, regressa a Portugal para mais três espectáculos. Hoje é a vez do Coliseu do Porto e nos dias 9 e 10 estará no de Lisboa. Na bagagem traz o novo álbum, ‘Segundo’, que em poucos meses já vendeu dez mil exemplares no nosso país, alcançando o galardão de Disco de Ouro.

07 de janeiro de 2006 às 00:00
Preciso ficar cá mais tempo Foto: António Rilo
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Correio da Manhã – De regresso a Portugal para mais três espectáculos. O que espera destes concertos?

Maria Rita – Não espero nada. Sinto que tenho uma responsabilidade muito grande que é subir ao palco. Cada ‘show’ é um ‘show’, cada plateia é uma plateia, mas o público de Portugal já deu provas de que é muito fiel.

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– Que recordação tem do público português? É muito diferente do brasileiro?

– É a terceira vez que venho em pouco tempo e isso é muito bom. Há uma boa empatia. O público português é quente, mas educado. Espera até há última nota para aplaudir. O brasileiro não: extravasa, pula e canta comigo. Às vezes é difícil concentrar-me.

– ‘Segundo’ já é disco de ouro em Portugal. Esperava este sucesso?

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– Não, foi uma surpresa total.

– O que se pode esperar deste novo álbum? É um corte ou a continuação do primeiro?

– Acho que é uma continuação, tem os mesmos instrumentos, a mesma banda e foi gravado ao vivo a cem por cento, com toda a gente a tocar ao mesmo tempo, tal como o primeiro. As canções que gravo marcam momentos da minha vida, por isso não posso dizer que haja um corte entre um momento e o outro.

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– Como foi trabalhar com Lenine na produção?

– O Lenine é um ídolo musical que respeito muito e uma pessoa extremamente inteligente. Alimenta muito a minha alma com as conversas que temos, seja sobre futebol ou sobre política.

– Pensa adaptar a letra de um compositor ou de um escritor português?

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– Sempre que venho cá penso nisso. Mas fico tão pouco tempo que acabo por não poder explorar melhor o País e a cultura. Preciso ficar mais tempo em Portugal.

– Equaciona escrever as suas letras?

– Sinceramente, apesar de muita gente falar disso, não tenho essa necessidade e não tenho esse talento. Limito-me a cantar.

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– Um dia disse: “Acho que se me impedissem de cantar, eu pirava.” A música é mesmo assim tão importante para si?

– É uma relação de paixão, de amor. Durante a gravação do disco fiquei quatro meses sem tocar. Durante esse tempo, a banda brasileira Rappa convidou-me para gravar o acústico ao vivo na MTV e aí vi como me fazia falta o palco e o contacto com o público. É onde me sinto mais feliz e mais completa.

– Acompanha a música que se faz em Portugal?

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– Fico envergonhada, mas não conheço. No Brasil não é fácil encontrar música portuguesa.

– Que bandas mais a atraem actualmente?

– Ouço Rappa, Los Hermanos, gosto de hip-hop americano, de Seal e de Staind.

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– Ser filha da Elis Regina é um grande peso?

– Existiu uma grande curiosidade, mais ao princípio, muito por ela ter morrido jovem e ter-se tornado um mito. Mas todos perceberam que somos diferentes e ninguém substitui ninguém. Isso seria um desrespeito para o legado dela. Diz-se que com o tempo, os grandes ídolos muitas vezes caem no esquecimento, mas as pessoas ainda falam muito de Elis.

"PUSERAM EM CAUSA O MEU CARÁCTER"

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– O álbum foi recebido bem por uma parte da crítica e muito criticado por outra. Houve quem a acusasse de enviar IPod aos jornalistas para que falassem bem. Como é que viu este caso?

– Isso foi uma vergonha, porque puseram em causa o meu carácter. Não tive absolutamente nada a ver com isso, porque foi uma escolha da companhia de ‘marketing’ que trabalha comigo.

– Se a decisão tivesse passado por si tê-los-ia enviado?

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– Não sei, porque não percebo nada de ‘marketing’. A editora disse que ia enviar IPod, e eu disse que era ‘legal’. Depois exageraram tudo, não eram 30 aparelhos, eram dez. Disseram que todos devolveram, mas só dois o fizeram. Acabou por ser uma coisa tão grande, que tirou enfoque ao disco. Fiquei mais incomodada, porque ninguém falou da música. Tudo partiu de uma revista que não gosta de mim e que não fala de mim há três anos, nem quando ganhei o Grammy latino.

Maria Rita nasceu em 1977 e apesar de decidir-se pela carreira musical tardiamente, aos 24 anos, o disco de estreia, homónimo, produzido por Tom Capone, foi lançado de maneira retumbante, vendendo mais de 350 mil cópias em dois meses e ganhando diversos prémios, incluindo três Grammy latinos.

Filha de dois ícones da música popular brasileira, a cantora Elis Regina e o músico César Camargo Mariano, Maria Rita formou-se em Comunicação Social e Estudos Latino-Americanos na época em que morou com o pai nos EUA. O primeiro álbum criou um grande rebuliço na Imprensa brasileira, ansiosa por ver o que valia a filha da mítica Elis. Sempre tentou evitar comparações com a mãe e criar o seu próprio espaço.

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A sua formação artística está muito ligada a nomes como Ella Fitzgerald, Nat King Cole, Djavan e Cássia Eller e o amadurecimento profissional deu-se ouvindo jazz, música instrumental e rap. ‘Segundo’ é o seu mais recente trabalho. Foi lançado em 2005, co-produzido por Maria Rita e Lenine, e traz, para além de temas inéditos, uma versão de ‘Minha Alma’, do grupo Rappa, com o qual dividiu o palco na gravação de ‘Rodo Cotidiano’, para o DVD ‘Acústico MTV’, gravado pela banda.

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