QUANDO AINDA SE RIA NO PARQUE MAYER
"Rir é a melhor coisa do Mundo. Eu até tenho um cão que ri!", disse um dia Vasco Santana numa entrevista a Igrejas Caeiro no decorrer do programa radiofónico 'O perfil de um Artista', em 1954.
É precisamente com esse excerto que encerra o álbum duplo 'Parque Mayer', um disco recém-editado que recorda alguns dos maiores êxitos do teatro de revista, canções e rábulas, interpretadas por alguns dos nomes que marcaram aquela que ainda hoje é considerada a Broadway portuguesa, de Hermínia Silva a Beatriz Costa, de Nicolau Breyner a Raul Solnado.
Não só porque rir é a melhor coisa do Mundo, mas acima de tudo porque o "Parque Mayer é uma história de família que estamos a esquecer, um sentimento destinto que estamos a assassinar", conforme escreve Baptista Bastos na nota introdutória, 'Parque Mayer' (o disco) é, na verdade, um indispensável documento histórico sobre aquele que foi um dos mais importante focos culturais da cidade de Lisboa. De resto, todos os temas, previamente investigados, surgem com as respectivas referências históricas, os autores, a data e a revista de onde foram retirados.
Para ouvir estão, entre outros, 'Zé Cacilheiro', de José Viana, 'Zé Povinho', de Laura Alves, 'O Cochicho', de Amália Rodrigues, 'Procissão', de João Villaret, e a famosa rábula da 'Guerra de 1908'. de Raul Solnado, sendo que a maioria dos temas incluídos nesta edição surgem pela primeira vez em CD.
Inaugurado a 15 de Junho de 1922 com a ambição de se tornar num pólo teatral, o Parque Mayer, que entre 1918 e 1920 já se havia imposto, então com o nome de Club Mayer, como um espaço nocturno de revista e jogo, depressa se assumiu como um centro de teatro de revista e feira popular moderna, tendo sobrevivido à censura de Salazar, ao avanço do cinema, à revolução, à televisão e sobretudo às novelas... até finais dos anos 70, altura em que os portugueses começaram a afastar-se.
A época de ouro do Parque Mayer, registou-se, contudo, nos anos 30 e 40, com as presenças assíduas de Vasco Santana, Mirita Casimiro, Costinha, João Vilaret, Eugénio Salvador ou António Silva. Ainda assim, em 80 anos da sua história, o Parque Mayer exibiu mais de 304 revistas e fez catapultar para o estrelato dezenas e dezenas de actores, os mesmos que hoje, como amanhã, valerá sempre a pena recordar.
"A história dos lugares é a história dos homens que os habitam... Por vezes esses lugares são tristes reservas de comovidas saudades e de intensos mitos. Mas a verdade é que ter saudades não é vergonha e sem mitos não se pode viver", conforme escreve Baptista-Bastos.
CANÇÕES, FADO E MUITO HUMOR
O disco 'Parque Mayer' intercala os diferentes tipos de canções e fado como momentos de puro humor, pelo que é possível recordar os diálogos entre Costinha e Carlos Coelho ('O Apreciador de Música'), Raul Solnado, na sua popular 'A Guerra de 1908' ou Ivone Silva com Natalina José e Vitor Rosado ('Bagaceira do Chiado').
Reúne sucessos desde a década de 20, como 'Santo António', número criado por Hortense Luz na revista 'Chá de Parreira' e recriado por Nicolau Breyner em finais da década de 70.
"Procurámos, sobretudo, que este disco fosse sobretudo uma memória de grandes momentos do teatro", explica David Ferreira da editora EMi-Valentim de Carvalho, que não rejeita a hipótese de que uma nova investigação sobre os êxitos da revista possibilite uma outra edição discográfica.
“Tudo o que sirva para chamar a atenção sobre um sítio que foi um pólo de atracção de cultura e espectáculo é importante, até porque o Parque Mayer esteve ainda muito recentemente remetido para a condição de parque de estacionamento. É importante que as gerações vindouras percebam o que foi aquele espaço”.
“Com a canção ‘Cheira a Lisboa’ recebi o prémio de Melhor Actriz de Teatro de 1969/70. Foi engraçado porque na estreia de ‘Peço a Palavra", cantei seis vezes o ‘Cheira a Lisboa’. Sobre o Parque Mayer, guardo as melhores memórias. Aos domingos, as pessoas iam para lá para nos ver entrar e atirar beijinhos”.
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