Quando ela era ele...

Fez-se militar para que fizessem dele bailarino. Quando conseguiu, fez de si próprio mulher. Esta é a sua história, ‘Nada Acontece Por Acaso’, o título e Jin Xing, o autor.

26 de fevereiro de 2006 às 00:00
Quando ela era ele... Foto: d.r.
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Jin Xing submeteu-se a uma operação de mudança de sexo em 1995, na China, onde nasceu homem e, assim o quis melhor o fez, renasceu mulher. Entre uma e outra coisa ganhou o mundo e um lugar no mundo. Vive actualmente em Xangai, onde é coreógrafa e uma mãe de família com três crianças adoptadas.

Em ‘Nada Acontece Por Acaso’, o livro que escreveu e, entre nós, a Quetzal editou, conta tudo, nomeadamente, como não podia ter-lhe dado outro título, afinal, tudo, ‘estava escrito’.

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Nasceu homem mas não demorou muito a detectar o erro. E, quando à intuição se juntou a razão, já não havia volta a dar-lhe... Não foi um acto de coragem, há-de repetir vezes sem conta, mesmo quase tendo perdido uma perna no bloco operatório: dramático para qualquer um mas fatal para um bailarino e, ainda por cima, “o melhor bailarino chinês”, como à data era chamado.

Era inevitável. Sentia-o desde que se lembra: em casa com a irmã, na rua com os amigos, no exército com os outros soldados a quem se junta para dançar e não para combater...

“Os bailarinos do exército representam a grandeza e a glória do Exército Vermelho”, escreve sobre a dança de propaganda que gerava autênticos acrobatas, o que fez com que se alistasse ainda criança mas já de ideias fixas. E fica-lhe desse tempo o horror às armas e à política, mas não às fardas... Não, não era homossexual. Era mulher!

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“São belos, os homens, quando choram. Não choram com grandes soluços ruidosos mas sim com lágrimas silenciosas”, lê-se. E quem se não uma mulher para o escrever ?!

DE CRISÁLIDA A BORBOLETA

De crisálida a borboleta, o processo foi lento, moroso e penoso mas, mais do que tudo, inevitável. Sentia-o.

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“Todos os detalhes foram acertados: proporções, funcionamento, todas a questões foram examinadas, e as complicações, tanto quanto possível, foram previstas”, lê-se numa das pouco mais de 200 páginas que sustentam as quatro partes do livro.

O livro de Jin Xing é um relato sereno que permite contar a vida sem chorar sobre ela, risco frequente em quem passa a papel vidas em chaga.

E, aqui, é toda uma vida que se conta: do chinezinho deslumbrado com a Coca-Cola que descobre em Paris a criatura sofisticada e misteriosa em que decide tornar-se, à vista das italianas com quem se cruza em Roma ou à revelação da dança moderna americana tão emotiva em contraste com a técnica esfíngica da dança clássica chinesa...

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“Enquanto habitar um corpo de homem, jogarei o jogo masculino”, diz a justificar a ausência de maneirismos femininos. Jogo duro.

Sofre como um condenado e sonha como um danado com o dia em que há-de reencontrar a sua natureza... “O teu filho vai ser tua filha”, recorda-se de dizer ao pai, um militar da velha guarda, que lhe responde o insólito: “Vais finalmente ficar em harmonia contigo”. Tal pai, tal filho, agora, filha: também ele, o velho militar, se nem sempre o soube, desde sempre, sentia-o.

OUTRAS HISTÓRIAS DE OUTRAS VIDAS

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Ficcionar biografias ou biografar ficções é o que está a dar, e daí a escrever e publicar umas e outras é um passo. Curto.

Morrie tem 75 anos e uma esclerose lenta e dolorosa que, um dia, há-de ser mortal, mas, até lá, que seja vital... Morrie Schwartz foi professor de Mitch Albom. Vinte anos mais tarde, este sabe que o antigo professor está a morrer e o reencontro prolonga-se por 14 terças-feiras. Último ensinamento: “Aprende a viver e saberás como morrer; aprende a morrer e saberás como viver”. Adaptado ao cinema sob o título de ‘As Terças com Morrie’, o livro chega da Pergaminho e o único senão é o mal escolhido título de ‘Amar e Viver’, a remeter o leitor para imerecida lamechice.

O relato da própria violação aconteceu no primeiro livro, ‘Visto do Céu’ (ed. Notícias, 2003) mas ainda não como protagonista. Ela é Alice Sebold e, 20 anos depois, cumpre promessa adiada: contar tudo... “No túnel onde fui violada, um túnel que outrora fora a entrada subterrânea de um anfiteatro, um lugar de onde os actores irrompiam para cima e para a frente, situado por debaixo dos assentos da multidão, uma rapariga fora assassinada e desmembrada. A polícia contou-me essa história. Comparada com ela, disseram, eu tinha tido muita... ‘Sorte’” (ed. Casa das Letras, 2006).

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