Quero o Villaret auto-suficiente

Carlos Fragateiro, director do teatro nacional d. maria II, acaba de assegurar, por dois anos, a gestão artística do Teatro Villaret, que a UAU abandona ao fim de oito anos. Diz que é para levar à cena peças que fazem furor nos palcos europeus.

02 de setembro de 2007 às 00:00
Quero o Villaret auto-suficiente Foto: Pedro Catarino
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Correio da Manhã – Em que contexto o Teatro Nacional D. Maria II (TNDM II) aparece como gestor do Villaret?

Carlos Fragateiro – Há muito tempo que eu queria um espaço como o do Villaret, capaz de trazer a Lisboa o teatro que se faz em todas as capitais da Europa. Peças do repertório contemporâneo que estão a fazer carreira em Madrid, Nova Iorque, Londres e Paris. Vamos produzi-las e colocar Lisboa nesse roteiro.

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– Mas expulsou a UAU do Villaret?

– Nada disso. Foi uma situação de emergência. Há 30 ou 40 anos que se fecham teatros em Lisboa. O Monumental, o Laura Alves, os teatros do Parque Mayer... É função de um teatro público criar condições para que um teatro como o Villaret não feche.

– Não respondeu à pergunta...

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– Foi uma coincidência. Devo isto a um actor que faleceu recentemente e que se chama Henrique Viana. No funeral do Henrique, encontrei o Vasco Morgado, que me disse que a sala ia ficar disponível porque a UAU ia sair do Villaret. Nessa altura, combinámos isto: arranjar condições para que a sala não fechasse.

– Recentemente, a Inspecção Geral das Actividades Culturais mandou reduzir em 60 lugares a capacidade da sala. Isso prejudica as expectativas que tem face ao espaço?

– Vamos lá ver: a sala tinha 440 lugares e passa a ter 384. Tiraram-se três filas, por razões de segurança. Em termos de gestão, o que vamos gastar nas produções no Villaret é exactamente o que gastaríamos na Sala Estúdio. Só que nesta, em dois meses, receberíamos, no máximo, 2400 espectadores. No Villaret, no mesmo tempo, podemos acolher 23 040 espectadores.

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– Vai fechar a Sala Estúdio?

– A Sala Estúdio é um equívoco de construção. Estamos a estudar o que lhe vamos fazer.

– O TNDM II estabeleceu parcerias com o Teatro da Politécnica, com o Mundial, com o Trindade... Está a ocupar a cidade?

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– Com o Trindade e com o Mundial foram colaborações pontuais. Estamos, de resto, a fazer parcerias com companhias do Porto, Aveiro, Évora... No Trindade fizemos um único espectáculo. Temos de ter melhores espaços para fazer melhor trabalho. Experimentámos fazer espectáculos no interior do teatro, no Salão Nobre, por exemplo, mas a utilização desses espaços é limitada. Neste momento há uma dramaturgia emergente, portuguesa e estrangeira, que não tem lugar na Sala Garrett e que queremos apresentar.

– O Villaret tem uma corrente de público própria, que espera ir ao teatro para rir. Está preparado para herdar essa expectativa, criada pela UAU?

– Isso não é assim. As salas não têm rótulos e o Villaret teve êxitos que não passaram pela comédia. O ‘Odeio Hamlet’, por exemplo. Importante é ter histórias fortes, com capacidade de mobilizar públicos, nomeadamente os jovens.

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– Mais concretamente, com que peças pensa atrair público ao Villaret?

– A programação do Nacional será anunciada dia 2 de Outubro.

– Quanto é que vai custar a renda daquele espaço?

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– Nada de significativo. E repito: o que se vai investir no Villaret é o mesmo que se investia na Sala Estúdio. E o retorno não terá comparação. Daqui a um ano analisaremos a performance das salas, para tirar tudo a limpo. Ideal seria, com os bilhetes a preços baixos – porque queremos chegar aos jovens e ao público popular e queremos que vão ao teatro como vão ao cinema, pagando o mesmo ou pouco mais – conseguir que, ao fim de dois anos, que o projecto fosse auto-suficiente. Que passasse a funcionar como uma micro-empresa.

– E o pessoal para pôr o teatro a funcionar?

– A estrutura do Teatro Nacional tem capacidade para gerir mais espaços do que a Sala Garrett. Temos quadros suficientes para assegurar o funcionamento do Teatro Villaret.

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– Por quanto tempo segurou a gestão do espaço?

– O arrendamento é de dois anos, renovável. Ao fim de dois anos, há que fazer a avaliação.

– Daqui a dois anos, se a coisa não funcionar, admite que errou e volta atrás?

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– Não parto para os projectos com esse espírito. Não acredito que aquilo falhe.

ONDE SE FEZ TEATRO MEMORÁVEL

Foi Raul Solnado quem, em 1964, fundou, na Av. Fontes Pereira de Melo, o Teatro Villaret, que baptizou em homenagem ao actor e ‘diseur’ João Villaret e onde criou e dirigiu a Companhia Portuguesa de Comediantes (à qual chegou a pertencer a actriz Eunice Muñoz). Foi aí que Raul Solnado gravou dois programas que mudaram a história do entretenimento televisivo em Portugal: o ‘Zip-Zip’ (1969) e ‘A Visita da Cornélia’ (1977).

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Na década de 70, Artur Ramos ocupou o espaço, entretanto passado para as mãos do empresário Vasco Morgado. Nos últimos anos, o Villaret foi gerido pela UAU e acolheu os grandes espectáculos de António Feio e José Pedro Gomes.

Carlos Manuel Branco Nogueira Fragateiro, 56 anos, nasceu em Montalegre, é formado em teatro pela Escola Superior de Teatro do Conservatório e doutorado em Ciências e Tecnologias da Comunicação pela Universidade de Aveiro. Foi director artístico da TELA, companhia de Leiria, da Efémero, de Aveiro, e assumiu durante nove anos a direcção do Teatro da Trindade, Lisboa. É, desde Janeiro de 2006, director do Teatro Nacional D. Maria II.

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