REGRESSO ÀS ORIGENS

Corre apressada a corrente de modas musicais que constrói uma História de sucessos encadeados. Mas, do outro lado desse ‘espelho’ sonoro, prevalece a genuína qualidade de alguns autores, como J. J. Cale, a quem o tempo e a fama não deixam marcas.

07 de junho de 2004 às 16:50
Partilhar

Oito anos depois de “Guitar Man” (1996), J. J. Cale está de volta com uma colecção imaculada de 13 novas canções. “To Tulsa and Back” (Capitol/EMI, 2004) é um verdadeiro regresso às origens. A ideia inicial era gravar com o produtor e companheiro de sempre Audie Ashworth no estúdio de ambos em Nashville (o ‘Crazy Mama’s’), mas Audie faleceu antes de a ideia ter sido posta em prática. J. J. Cale dedicou-lhe a recolha de temas ao vivo editada em 2001 e regressou à estrada em 2002, após um longo período de pausa.

Retemperado pelos palcos, J. J. Cale descobriu a fórmula para a sua primeira gravação em três décadas sem a participação de Ashworth: o regresso a Tulsa, cidade no Oklahoma que o viu nascer e de onde partira há muito.

Pub

Em Tulsa, J. J. Cale contratou o estúdio do baterista e velho amigo David Teegarden e procurou os companheiros da sua infância musical. “Toquei com alguns destes tipos há 40 anos e digo-vos uma coisa, penso que ninguém neste disco terá menos de 60 anos de idade”, comentou J. J. Cale, referindo que as primeiras sessões mais pareciam encontros sociais que reuniões de trabalho.

O resultado deste regresso às origens é isso mesmo, um disco que retoma na sua essência o calor, o ritmo pausado e embalador e a peculiar e cristalina versão musical da ruralidade norte-americana a que J. J. Cale sempre nos habituou. “My Gal”, “Chains of Love”, “One Step” e “Blues for Mama” são autênticos clássicos à boa velha maneira. “Stone River”, uma das mais brilhantes canções deste disco, assinala uma incursão da escrita de Cale na temática da defesa ambiental. E “The Problem”, onde Cale canta que “o homem que manda tem de ir”, confirma o carácter político que tem emergido nas mais recentes músicas do autor.

Na fonte inspiradora da cidade berço, J. J. Cale reencontrou o que nunca esqueceu, o cruzamento único – e moldador da sua cultura musical – entre a pura raiz ‘country’ do Oklahoma Ocidental e as tonalidades blues e jazz das proximidades do Mississippi, no Oklahoma Oriental.

Pub

“To Tulsa and Back” é um clássico J. J. Cale, um autor que vive no deserto da Califórnia e foge da fama desde a década de 70, apesar da sua profunda influência sobre grandes nomes da música como Eric Clapton ou Dire Straits, por exemplo, e das múltiplas versões de canções suas feitas por artistas como Lynyrd Skynyrd, Deep Purple, Allman Brothers, Johnny Cash, The Band, Santana, Captain Beefheart e Bryan Ferry.

O histórico “Cocaine” popularizado na interpretação de Eric Clapton, por exemplo, é um original de J. J. Cale. Recentemente, a revista “Mojo” perguntou a Clapton que outro artista gostaria de ser e ele respondeu J. J. Cale, considerando-o um dos grandes mestres das últimas três décadas de música. Esse valor está bem patente neste regresso de J.J. Cale às origens...

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar