Regresso de mestre
Três músicos de méritos cravados nas discografias alternativas, três talentos que andariam à procura dos complementos mútuos para chegar a um desfecho assim (‘Snow Borne Sorrow’).
Directo à sentença: ainda na expectativa do que poderá valer o disco que assinala a ressurreição de Kate Bush (doze anos depois de ‘The Red Shoes’), já aqui está o álbum que pode levar-me, deleitado, rendido, hipnotizado, até ao final de 2005. Chama-se ‘Snow Borne Sorrow’ e, oficialmente, é assinado por um colectivo de circunstância – Nine Horses. Três homens, três músicos de méritos cravados nas discografias alternativas, três talentos que andariam à procura dos complementos mútuos para chegar a um desfecho assim. Em boa verdade, com todo o respeito por Burnt Friedman, vindo das áreas da electrónica e da remistura, e por Steve Jansen, ainda lembrado como um dos lados do quadrado que foram os Japan, este é – do princípio ao fim – um disco que, a ter de escolher um só legítimo proprietário, correria a inscrever-se na discografia de David Sylvian.
Mais uma vez, vale a pena começar pelo julgamento: ‘Snow Borne Sorrow’ confirma que a vida corre bem a Sylvian quando ele opta por camuflar-se num ‘colectivo’. Passaram 14 anos sobre a reunião dos Japan, rebaptizados por um disco como Rain Tree Crow, e a magia regressou. Depois, este é o herdeiro natural de ‘Dead Bees On A Cake’, lançado há meia dúzia de anos, quando já se desesperava pelo talento perdido de Sylvian, embrenhado em experimentalismos mais ou menos estéreis (como em ‘Blemish’ ou nas remisturas de ‘The Good Son vs. The Only Daughter’). Finalmente, é justo dizer que todo este registo sublinha aquilo que, isoladamente, fora feito por Sylvian e Ryuichi Sakamoto na fabulosa canção que é ‘World Citizen’, lançada no ano passado.
A atmosfera de ‘Snow Borne Sorrow’ fica definida à partida, em ‘Wonderful World’, tão próxima do jazz como da valsa, com as teclas e as programações a criarem o leito sonoro por onde correm as vozes, opostas, de Sylvian (grave e profunda, cheia de reverberações) e de Stina Nordenstam (cristalina e frágil, num dos melhores momentos que se lhe conhece). ‘Darkest Birds’ seria, também, uma belíssima porta de entrada para o álbum, brincando com as convenções pop e abrindo espaço para o marcante trompete de Arve Henriksen, outro dos convidados de luxo. ‘The Banality Of Evil’ casa guitarras eléctricas com vibrafones e, não contente, provoca o ‘ménage’ com um naipe de sopros (que também vão aos solos), numa reunião transcendente a que os mais atentos não deixarão de notar proximidades com o trabalho recente de Peter Gabriel. ‘Atom and Cell’ é um arranjo notável, com coros em pujança, base simples e cheia de ‘repentes’, construção em espiral e as fugas seguras do piano de Sakamoto.
Já ‘A History Of Holes’ vale como uma – rara – confissão autobiográfica de Sylvian, sublinhada por vibrafone, guitarra ‘wah-wah’ e saxofone: uma pérola. O tema título mostra o regresso às diatribes electrónicas de Sylvian, atenuadas pelos golpes geniais do piano de Sakamoto, quase pontuações sonoras que não passam despercebidas. Atenção à conjunção de guitarras, acústica e eléctrica, em ‘The Day The Earth Stole Heaven’, música do guitarrista Tim Motzer, noutra pérola que, como já se escreveu, navega entre o folk e o jazz sem sair dos terrenos de Sylvian. ‘Serotonin’ serve, entre outros fins, para matar saudades dos Japan – basta seguir a rítmica e não perder a boleia da voz. O fecho chega com um tema já lançado anteriormente, mas em novo arranjo: neste ‘The Librarian’, conjugam-se sopros, vibrafone e guitarra, todos em contribuição virtuosa, com uma base sincopada que faz ressaltar ainda mais a voz do mestre.
São nove andamentos para uma obra-prima, diferente de tudo o que anda por aí. E, de quase tudo, para melhor.
Confirma-se a disposição camaleónica de ZÉLIA DUNCAN, uma das melhores criadoras e cantoras do Brasil actual: ‘Pré--Pós-Tudo-Bossa-Band’ é um manifesto de poderosa modernidade (letras, arranjos, concepção), com recurso a originais cúmplices de Lenine, Paulinho Moska, Itamar Assumpção, Pedro Luís, Lucina e Lulu Santos. Cai especialmente bem depois de ‘Eu Me Transformo Em Outras’, álbum de versões. Atenção, agora, a ‘Mãos Atadas’, em dueto com Frejat (Barão Vermelho) e dedicada a Cássia Eller.
O homem trava a verdadeira batalha da produção, mas nem por isso a alta média conseguida se ressente: ‘Jacksonville City Nights’ é o segundo dos três álbuns que RYAN ADAMS propõe lançar este ano. Faz finca-pé na criatividade do country alternativo (a expressão é dos americanos), com incursões pelo ‘rockabilly’, pelos blues e pela balada, tudo sem uma pinga de ‘gordura’ instrumental. Directo para a antologia vai o belo encontro das vozes de Adams e de Norah Jones em ‘Dear John’. Soberbo.
Confesso a minha embirração com a chamada música sazonal: boa parte das cantigas de Verão, mais as de Natal e, pior que tudo, as ditas de Carnaval. O facto de DIANA KRALL se dispor a esta incursão infeliz que se exibe em ‘Christmas Songs’ não chega para alterar a regra. Nem o piano enrolado e a voz rigorosa de Mrs. Krall, cercada por uma orquestra jazz, conseguem evitar o bocejo quando se dá de caras com ‘Jingle Bells’, ‘Let It Snow’ ou ‘Winter Wonderland’. Frustrante até para fanáticos.
Um quarto de século depois de ‘Guilty’, é o reencontro de BARBRA STREISAND e Barry Gibb. Mas ‘Guilty Too’ parece uma versão carcomida pelo tempo do que estes dois fizeram antes, não havendo nada que chegue próximo de ‘Woman In Love’ ou ‘What Kind Of Fool?’. Dois duetos assumidos, três canções que ficariam bem melhor no repertório dos Bee Gees (‘Stranger In A Strange Land’, ‘Night Of My Life’, ‘All The Children’) e meia dúzia de sensaborias, bem embrulhadas, mas verdadeiramente ocas. Não marca.
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