Rendição incondicional
Duas horas e meia de magnetismo, feitiço, devoção. Nunca se fez nada de semelhante. Nunca se fará nada de parecido.
Quis o destino que a edição em DVD de ‘Pulse’, tantas vezes adiada com o pretexto (credível, verificado o resultado) de sucessivas melhorias no som, coincidisse com o anúncio da morte de Syd Barrett, precisamente o fundador e primeiro líder dos Pink Floyd. Há nisto uma espécie de justiça poética. Como se o desaparecimento do ‘diamante louco’ fosse esbatido pelo regresso dos seus parceiros e herdeiros à ribalta. De resto, o primeiro dos dois discos desta edição abre precisamente com ‘Shine On You Crazy Diamond’, reconhecido como o epitáfio de Barrett… em vida. E só é pena que o alinhamento do DVD tenha deixado de fora ‘Astronomy Domine’, um dos temas escritos por Barrett, incluído na versão CD (1995).
Com este ‘Pulse’, sonoro e visual, é fácil confirmar que os Pink Floyd são, em simultâneo, um caso único de resistência à partida dos líderes (Barrett primeiro, Waters depois) e um exemplo inconfundível de sobrevivência às modas, aos anos, às escolas, às teorias. Editado no princípio desta semana, já alcançou a marca de Platina em Portugal e comanda, destacado, as compras nas principais lojas ‘on-line’ da Europa e dos Estados Unidos, à frente – raríssimo – dos filmes de ficção e das séries de TV. E, no entanto, já houve disco, VHS, ‘laser disc’, além dos concertos que servem de base terem sido realizados no Earls Court londrino há uma dúzia de anos…
Com tudo isto, ‘Pulse’ é irresistível. Não tanto pela realização, discreta, de um veterano da música filmada – David Mallet. A qualidade sonora, tratando-se de um registo de palco e não de um trabalho de estúdio, também tem (ligeiríssimas) imperfeições. O que conta é o esplendor de um espectáculo a que, na essência, tivemos a sorte de assistir em Portugal, também em 1994 e na ‘Division Bell Tour’. A parafernália impressiona e, ainda hoje, chegaria para bater com vantagem a concorrência. Luzes em riste, explosões, filmes projectados num ecrã circular, até um avião que aparece a rasar o palco e uma bola de espelhos gigantesca suspensa sobre o público, tudo concorre para um ‘show’ que esmaga, convence e entusiasma, por esta ordem.
O resto é a magia da música, com o trio Floyd – David Gilmour em liderança absoluta, virtuoso, mais Richard Wright e Nick Mason – reforçado por parceiros inatacáveis, como o baixista Guy Pratt, o guitarrista Tim Renwick (que chega a servir de ‘duplo’ a Gilmour), o saxofonista Dick Parry (que já vem da gravação original de ‘The Dark Side Of The Moon’) e as cantoras Sam Brown, Claudia Fontaine e Durga McBroom. Além das canções de ‘A Momentary Lapse Of Reason’ e ‘The Division Bell’, há uma incursão em ‘Meddle’ (‘One Of These Days’). O resto são os hinos – ‘Shine On…’, ‘Wish You Were Here’, ‘Another Brick In The Wall’, ‘Comfortably Numb’, ‘Run Like Hell’. E há um ‘pormenor’ decisivo: esta é a única gravação, em som e imagem, com ‘The Dark Side Of The Moon’ integral sobre um palco. Integral e exemplar.
O todo – além de alguns extras preciosos – rende duas horas e meia de magnetismo, feitiço, devoção. Nunca se fez nada de semelhante. Nunca se fará nada de parecido.
- Vai fazer 67 anos mas continua com uma actividade invejável: FRANCIS HIME, um dos grandes parceiros de canções de Chico Buarque, compõe, arranja, toca, canta. Ruy Castro já lhe chamou “uma orquestra”. Quatro espectáculos em Portugal (a partir de hoje e até dia 23) fazem dele alvo um a não falhar.
- Canta o México com alma e técnica, como saberá quem a conheceu na banda sonora do filme ‘Frida’. LILA DOWNS é nome a não perder de vista, tanto mais que os seus discos (‘Tree Of Life’, ‘La Linéa’, ‘Una Sangre’ e o novo ‘La Cantina/Entre Copa y Copa’) são preciosos. Está por cá 18 (Porto) e 19 (Lisboa).
- CHRISTY MOORE é um veterano irlandês – está quase nas duas dúzias de álbuns, sem contar com colectâneas e participações nos grupos Planxty e Moving Hearts. ‘Live In Dublin’ é um duplo CD admirável em que, com duas vozes e duas guitarras (o parceiro é Declan Sinnott), dá a volta à tradição irlandesa, ao repertório próprio, às canções de protesto declarado e até a versões inexcedíveis (como ‘Motherland’, de Natalie Merchant). O resultado é rigoroso e informal, uma óptima forma de conhecer um talento da folk.
- Podia ser histórico, este ‘Gillan’s Inn’: o carismático cantor dos Deep Purple, IAN GILLAN, reúne craques, do seu antigo grupo e do rock duro (Satriani, Tonny Iommi, Jeff Healy). O problema é que os ‘remakes’ das canções – até ‘Smoke On The Water’ – nada trazem de novo ou eficaz. Gratuito – é pena.
- É a batalha da produção: aos 23 anos, LeANN RIMES já vendeu 37 milhões de discos e vai no nono álbum de estúdio. Entre o pop e o country, ‘Whatever We Wanna’ deixa deslizar a frescura de outros tempos, tem excessos na produção e não consegue ultrapassar a mediocridade da matéria-prima. Acto falhado.
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