Retrato da infelicidade no Sul dos Estados Unidos

‘Jardim Zoológico de Cristal’ está em Lisboa até dia 12 de Janeiro, no âmbito da digressão nacional que está a realizar desde Outubro do ano passado. A seguir vai para Portimão

08 de janeiro de 2010 às 00:30
Retrato da infelicidade no Sul dos Estados Unidos Foto: D.R.
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É uma peça autobiográfica de Tennessee Williams e antes de ser um texto para a cena foi um conto chamado ‘Retrato de uma Rapariga feita de Vidro’ (na tradução portuguesa publicada recentemente pela Assírio Alvim) e, mais tarde, argumento para um filme.

O autor, que gostava de trabalhar e retrabalhar os seus textos – mesmo aqueles que já tinha publicado – usou a própria família como fonte de inspiração para escrever ‘Jardim Zoológico de Cristal’, peça que acaba de chegar a Lisboa numa encenação de Nuno Cardoso e que depois da curta carreira no Teatro Taborda (onde estará até dia 12), segue para o Tempo de Portimão, para uma representação única, dia 23.

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Aqui se conta a história de uma família disfuncional do sul profundo dos Estados Unidos. ‘Amanda’ (Maria do Céu Ribeiro) é uma matriarca que, sentindo ter falhado a sua própria vida, se projecta na sua filha, ‘Laura’, para conseguir, através dela, uma segunda oportunidade para ser feliz.

Mas ‘Laura’ (Micaela Cardoso), não só tem um defeito físico – é coxa – como sofre de uma terrível timidez e depois de ter desistido do liceu desistiu também da escola profissional. O que resta quando uma mulher não tem aptidões nem para trabalhar nem para arranjar um marido que a sustente?

No meio das duas mulheres está ‘Tom’ (Luís Araújo), o irmão de ‘Laura’ que alimenta a família com um emprego num armazém, enquanto escreve poemas às escondidas e sonha com uma vida diferente.

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Este drama familiar atinge o clímax quando a mãe convence ‘Tom’ a trazer a casa um amigo para namorar ‘Laura’ e esse amigo, ‘Jim’ (Romeu Costa) revela ser uma paixão antiga da pobre jovem, desencadeando uma crise.

Com este material para trabalhar, era grande o risco de se cair no registo melodramático mas o encenador decidiu seguir as indicações do próprio Tennessee Williams – que advogava um teatro não realista (conforme se lê no programa do espectáculo) – e usou vários recursos de distanciação para nos dar a ler esta história de forma mais racional e menos emotiva.

O primeiro é o próprio cenário: as personagens encontram-se dentro de uma caixa ou jaula, quais animais de um jardim zoológico, elas próprias frágeis como vidro. Não há aqui qualquer ilusão de realidade.

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Em cima do palco, há um ecrã onde são projectadas as palavras-chave da peça. Os próprios actores são agentes de distanciação: ‘Tom’ assume frequentemente a função de narrador; os outros actores ora actuam e contracenam, ora ficam paralizados em cena enquanto a acção prossegue.

Finalmente, a música, de carrossel, sublinha o patético desta coreografia de quatro figuras, cada uma delas infeliz à sua maneira.

O resultado não podia deixar de ser triste mas é, acima de tudo, uma forma diferente de ver Tennessee Williams. O que já não é dizer pouco.

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