Saber o que custou a liberdade
Ana Nave estreia hoje, no Trindade, uma peça sobre a luta pela democracia travada durante o Estado Novo.
Uma viúva reprimida e repressora, fascista convicta, recebe em casa a filha, uma resistente contra o regime de Salazar, e a neta recém-nascida. Tudo separa estas mulheres, mas nem no pior pesadelo podíamos antecipar o desfecho da história escrita por Miguel Falcão e que venceu a última edição do Prémio Miguel Rovisco – Novos Textos Teatrais, atribuído pelo Teatro da Trindade/Inatel.
‘Sombras’, que estreia hoje na Sala Estúdio daquele espaço de Lisboa, é um “espetáculo com reviravolta” e, no ano em que se celebram os 50 anos do 25 de Abril, “mais oportuno não podia ser”. Ana Nave – que fez parte do júri do prémio e assina a encenação – explica que “aqui estão em jogo duas maneiras opostas de ver o Mundo, mas também duas formas muito diferentes de ser mãe”, alertando para o facto de que, “em democracia, nada pode ser tido como garantido”.
Interpretado por Carla Maciel e Mafalda Marafusta – escolhas que muito a satisfazem –, Ana Nave sublinha ainda a importância, para o usufruto da proposta, da banda sonora. A música revolucionária ‘Acordai’, de Fernando Lopes-Graça, “proibida pelo Estado Novo em 1945”, é usada durante o espetáculo para “conseguir aquele efeito galvanizador que só as grandes composições conseguem produzir”. Já as cenas de tortura foram eliminadas e, em vez do horror, a encenadora faz passar, em palco, através de uma projeção de flores que se desfazem frente aos nossos olhos, uma espécie de delírio psicadélico. “Inspirei-me nos relatos da atriz Fernanda Neves, que foi submetida à tortura do sono, e diz que a certa altura começou a ter alucinações”, explica. O arrepiante ‘Sombras’ fica em cena até novembro.
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