SEDUÇÃO E MORTE

‘Carmen’ é, para um número muito significativo de pessoas, nome de mulher (andaluza), título de uma das mais conhecidas óperas (de origem francesa) e sinónimo de drama passional (de contornos universais).

26 de novembro de 2003 às 00:00
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Neste século ainda continua a ser um apetecível produto de exportação de Espanha que faz dela uma bandeira cultural fortíssima, sem paralelo no nosso País. ‘Carmen Flamenco’ é o título da peça de dança que o Ballet Flamenco de Madrid trouxe ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Trata-se de uma suite de danças que tentam contar, ainda que de um modo pouco convincente, o triângulo amoroso vivido pela fogosa cigana que cria confusão numa fábrica de cigarros, por um soldado que deserta pelo seu amor e por um toureiro de sucesso que a veste com folhos e ‘peineta’.

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PEÇAS-CHAVE ELIMINADAS

O início da obra é bastante bem caracterizado com as três personagens expostas no palco e onde Escamillo (dentro de um cintilante e apertado ‘traje de luces’) protagoniza essa relação mítica entre a dança e a ‘festa brava’. Mas a pouco e pouco o espectáculo vai esmorecendo pois não só se eliminam peças-chave para a boa compreensão da obra – o caso mais flagrante é Micaela, a namorada de D. José –, como graças à introdução de danças avulsas, tais como umas ‘sevilhanas goiescas’, que saem algo fora do contexto.

Interessante é a junção de canções populares andaluzas e de um grupo de músicos e ‘cantaor’ ao vivo às árias da ópera, mas os repetidos quadros de rendilhado ‘taconeo’ – danças abstractas – sem relevância para a história, quebram a unidade formal de uma obra-prima que o canto lírico imortalizou.

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A essência da sedução e a espessura do drama de ‘Carmen’ estão, contudo, presentes numa coreografia – de onde se destaca um belo solo com um leque vermelho – assinada por Emílio Fernández e Paço Mora (nem programas havia para confirmar) -, sem cenografia mas com cuidados nos figurinos, e em que o som apresentou falhas e o desenho de luzes nem sempre ajudou o trabalho dos empenhados bailarinos.

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