SEIS VEZES CHICAGO
A Oeste, nada de novo, a não ser o brilho das estrelas, que foi ténue. Nos realizadores, entre Scorsese e Polanski, a Academia escolheu o segundo. E ‘Chicago’ venceu sem surpresa.
E ao fim de 35 anos Hollywood voltou a render-se a uma paixão quase tão velha como a sua Academia: o musical. Sem surpresa, “Chicago”, que traz de novo à ribalta a cidade que nos anos 30 fervilhava de vida, arrebatou o Óscar de filme do ano e mais cinco para actriz secundária, direcção artística, guarda-roupa, som e montagem.
Nada mau nos 12 possíveis. É que, apesar de nomeada em 13 categorias, a realização de Rob Marshall jamais poderia fazer o pleno pois tinha duas actrizes (Catherine Zeta-Jones e Queen Latifah) a concorrer na mesma, a secundária.
Numa cerimónia a que faltou o brilho e o “glamour” próprios da fábrica dos sonhos, tudo se resumiu a umas “curtas” três horas e meia de emissão. A mais breve dos últimos anos, porque a época não se apresenta de feição.
Numa noite sem glória para “Gangs de Nova Iorque”, de Martin Scorsese, destacou-se “O Pianista”, que mistura a história verídica de Wladislaw Szpillman registada na autobiografia homónima, com alguns episódios da vida do seu realizador, Roman Polanski. A obra conseguiu as estatuetas para realização, actor principal e argumento adaptado.
Foi, finalmente, a consagração do cineasta de “Chinatown”, “Tess” e “A Semente do Diabo” pelos seus pares da Academia. O mesmo cineasta que não pisa solo americano há 26 anos (ver caixa) sob pena de ser detido. Esteve representado, e bem, por Adrien Brody, que nos bastidores, já após a gala e menos atordoado pela vitória, estendeu a todos a boa disposição.
OUTROS VENCEDORES
Nas categorias com menor visibilidade pública, o veterano Conrad L. Hall viu premiado o magnífico trabalho de fotografia em “Caminho Para Perdição”, arrasando a concorrência de Dion Beebe (“Chicago”), Edward Lachman (“Longe do Paraíso”), Michael Balhaus (“Gangs de Nova Iorque”) e Pawel Edelman (“O Pianista”).
Elliot Goldenthal venceu com a banda sonora de “Frida” – filme que ganhou ainda na categoria de melhor caracterização – enquanto na de canção original, Eminem eclipsou grandes nomes como U2 e Paul Simon.
Nos efeitos especiais sonoros e visuais, não houve surpresas com a vitória (esperada) a recair em “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres”, o mesmo acontecendo com “Bowling for Columbine”, o polémico documentário longa-metragem assinado por Michael Moore sobre a proliferação de armas nos Estados Unidos.
O'TOOLE O EXCEPCIONAL
Este ano, os mais de seis mil membros da Academia homenagearam Peter O’Toole, “cujo excepcional talento dotou a história do cinema com as suas mais memoráveis personagens”, com o Óscar Honorário.
Ainda a tempo, portanto, de reparar um erro imperdoável: nomeado por sete vezes na sua longa carreira, o inesquecível protagonista de “Lawrence da Arábia” nunca venceu a cobiçada estatueta.
No final, aplaudidos por centenas de fãs que se concentravam à porta, as vedetas deixaram o Teatro Kodak e rumaram às várias festas pós-Óscares que proliferavam um pouco por toda a Hollywood.
Festas sem tapete vermelho à entrada, “paparazzi” e grande confusão. Ainda que por uma vez os “flashs” estivessem ausentes.
Em tempo de crise e de mudanças, há coisas que felizmente permanecem inalteráveis, e uma vez mais o “glamour”, a beleza, o bom gosto e a elegância (com algumas excepções, claro), voltaram a marcar presença em mais uma edição dos Óscares.
Julianne Moore, Kate Hudson, Diane Lane, Renée Zellweger e Queene Latifah foram apenas algumas das beldades presentes na festa. Porque o mundo não tem que ser necessariamente negro, elas voltaram a dar cor a uma cerimónia a que muitos chamaram o “Óscar da Guerra”. E ainda há quem pense nela!...
O REGRESSO DE UMA VELHA PAIXÃO
É tão velha quanto a Academia de Hollywood a história de amor e paixão entre os Óscares e os musicais. Isto apesar de “Oliver!” ter sido, em 1968, o último musical, antes de “Chicago”, a ser eleito o melhor filme do ano.
Corria o ano de 1929, era a Academia recém-nascida, quando “Broadway Melody”, um musical, arrebatou a estatueta já dourada mas ainda pouco famosa. Graças aos avanços da tecnologia, os anos 30 foram a época grande dos musicais, os filmes que os espectadores queriam ver numa ânsia crescente de entretenimento para esquecer as dificuldades da vida.
Na linha da frente estava a Metro-Godlwyn-Mayer, seguida da RKO – que tinha sob contrato duas poderosas estrelas, Fred Astaire e Ginger Rogers – e a 20th Century Fox detentora de uma fórmula imparável de sucesso: Shirley Temple, irresistível nos seus caracóis louros, cantando e dançando como gente grande. Foi a primeira criança-prodígio, que antecedeu uma outra, também tornada famosa num musical, Judy Garland (“OFeiticeiro de Oz”).
Após uma quebra nos anos 40, o musical renasceu na década seguinte com a adaptação de espectáculos da Broadway como “Sete Noivas Para Sete Irmãos”, “Um Americano em Paris”(1951) e “Gigi” (1958), ambos de Vincent Minnelli e ganhadores do Óscar para melhor filme. O sucesso é um dado adquirido e os musicais continuam na senda do sucessos na década seguinte: “West Side Story” (1961) ganha dez Óscares, “My Fair Lady” (1964) oito e “Música no Coração” (1965) cinco. Sem Óscares de filme do ano mas arrebatando outras categorias, seguiram-se “Cabaret” (1972), “All That Jazz” (1979), “Evita” (1996) e “Moulin Rouge” (2001).
ADRIEN BRODY: O MAIS JOVEM ACTOR A GANHAR ÓSCAR
Nascido há 29 anos em Nova Iorque, Adrien Brody acaba de entrar para a história da Academia como o mais jovem actor a ganhar o Óscar na categoria principal.
Encontrado por acaso, por um agente de “casting” que viu a versão em DVD de “A Barreira Invisível” – a sua participação fora retirada da montagem final do filme de Terrence Mallick –, Brody soube desde o início que a interpretação do pianista adaptado por Roman Polanski seria um desafio. E foi, de facto, tanto física como mentalmente. “A beleza do que faço é o ter a oportunidade de me esquecer de mim e de tentar compreender outras pessoas, outros tempos, outras guerras, outras emoções”, confessou o actor ainda antes de vencer a estatueta.
Para se aproximar o mais possível de Wladyslaw Szpilman (o pianista que existiu mesmo e sobreviveu aos horrores do gueto de Varsóvia na Segunda Guerra Mundial), Brody encetou um trabalho habitualmente só exercitado por actores que seguem o método de Stanislavsky – a incorporação do ser, do sentir da personagem.
A pedido de Polanski, cuja fama de exigência é conhecida, Brody começou por dedicar quatro horas diárias ao estudo do piano, até conseguir reproduzir as partes específicas das composições de Chopin ouvidas no filme. De seguida, como convinha, despojou-se das coisas materiais e confortáveis da vida: o apartamento e o carro foram deixados para trás, os pertences reunidos em dois sacos. De teclado às costas, rumou à Europa: “Tinha saudades de toda a gente e de todas as coisas boas, mas isso fez com que entrasse mesmo no personagem”, recorda o actor. Imerso nos horrores do Holocausto, ensaiou, estudou e pensou em comida.
Pensou, apenas, porque quando chegou a altura das filmagens, estava com 59 quilos, como convinha ao seu mais de 1,80 de altura...
Polanski não surpreendeu pela ausência! Sobre ele pesa um mandado de captura por abuso sexual de menor. Aconteceu em 1977 e, com ou sem o consentimento da jovem, 50 anos de prisão foi a sentença. Exilado em França, o cineasta não poderá voltar aos Estados Unidos nem mesmo por uma noite de glória.
Decididamente os astros sorriem a “O Pianista” e isto porque, em noite de estrelas, sempre se recorda que ao Óscar se soma a Palma de Ouro de Cannes, os Césares de França, os Goyas de Espanha e os BAFTA de Inglaterra.
Melhor Filme – “Chicago” (Miramax)
Melhor Realizador – Roman Polanski (O Pianista)
Melhor Actor – Adrien Brody (O Pianista)
Melhor Actriz – Nicole Kidman (As Horas)
Melhor Actor Secundário – Chris Cooper (Inadaptado)´
Melhor Actriz Secundária – Catherine Zeta-Jones (Chicago)
Melhor Fotografia – “Caminho Para Perdição” (Conrad L. Hall)
Melhor Argumento Original – “Fala com Ela” (Pedro Almodóvar)
Melhor Argumento Adaptado – “O Pianista” (Ronald Harwood)
Melhor Longa Metragem de Animação – “Spirited Away” (Hayao Miyazaki)
Melhor Montagem – “Chicago”
Melhor Maquilhagem – “Frida” (John Jackson e Beatrice De Alba)
Melhor Direcção Artística: “Chicago” (John Myhre)
Melhores Efeitos Visuais – “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres” (Jim Rygiel, Joe Letteri e Randa William Cook)
Melhor Guarda-Roupa – “Chicago” (Colleen Atwood)
Melhor Banda Sonora Original – “Frida” (Elliot Goldenthal)
Melhor Filme em Língua Estrangeira – “Nirgendwo in Africa” (Alemanha)
Melhor Canção Original – “Lose Yourself” (Eminem, "8 Mile")
Melhor Edição de Som – “O Senhor dos Anéis”
Melhores Efeitos Sonoros – “Chicago”
Melhor Documentário de Curta-Metragem – “Torres Gémeas” (Bill Guttentag e Robert David Port)
Melhor Documentário – “Bowling for Columbine” (Michael Moore)
Melhor Curta-Metragem de Acção – “This Charming Man» (Der Er En Ynding Mand), Martin Strange-Hansen e Mie Andreasen
Melhor Curta-metragem de Animação – “The Chubb Chubbs!” (Eric Armstrong)
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