‘Senhor Cinema’ morre aos 74 anos

Quando a vida de alguém se confunde com a própria História da Sétima Arte em Portugal, é legítimo dizer-se que, com o seu desaparecimento, o cinema morre também um bocadinho. Foi assim ontem quando, aos 74 anos, se fecharam os olhos de João Bénard da Costa. <br/><br/>

22 de maio de 2009 às 00:30
‘Senhor Cinema’ morre aos 74 anos Foto: João Miguel Rodrigues
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Se a vida daquele a quem alguns apelidam de ‘Senhor Cinema Português’ dava um filme, ao longo dela Bénard da Costa viu muitos, entrou em alguns, escreveu sobre inúmeros. Desde os tempos dos clubes cinéfilos até à Cinemateca, passando pela Gulbenkian, todo o seu trajecto se colou ao grande ecrã. Incendiou debates sobre o cinema em Portugal e deixou um legado inesgotável no ANIM (Arquivo Nacional de Imagens em Movimento) e na Cinemateca. Ontem, a instituição, em sinal de luto, suspendeu as suas sessões (que retoma segunda-feira), mantendo só para hoje, às 21h30, o filme ‘Johnny Guitar’, em homenagem ao homem que dirigiu os seus destinos mais de 20 anos (primeiro, em 1980, como subdirector e desde 1991 como director).

Em resposta ao anúncio da morte de Bénard da Costa, que sucumbiu à luta contra o cancro, o País desdobrou-se em palavras sentidas, homenagem dos muitos que foram tocados pelas palavras sábias, e sempre muito cinematográficas, do director da Cinemateca. Bénard da Costa encontrava-se doente há meses, sendo substituído interinamente por Pedro Mexia.

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O corpo encontra-se na Igreja de São Sebastião da Pedreira, em Lisboa, de onde segue hoje, às 14h00, para o cemitério dos Olivais.

UM ACTOR SOB PSEUDÓNIMO

A meio dos anos 90, antes de projectar ‘Amor de Perdição’ na Cinemateca, Bénard da Costa elogiou Manoel de Oliveira e pediu a indulgência do público para com um dos actores. Quatro horas depois, o mistério desvendou-se: o comandante do navio que leva Simão Botelho para o exílio era ele próprio.

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Em ‘Amor de Perdição’, e em outros filmes em que participou, adoptou sempre o pseudónimo Duarte de Almeida. Trabalhou sobretudo com Manoel de Oliveira – até fez de Papa João XXIII num encontro com o ditador soviético Nikita Khrushchov (Michel Piccoli), numa curta-metragem integrada no filme ‘Cada um o seu Cinema’, que está em exibição em Lisboa –, mas também com João César Monteiro (‘Recordações da Casa Amarela’) e António-Pedro Vasconcelos (‘Aqui d’El-Rey!’). 

FRASES

"Era um prazer ler os textos dele e ouvi-lo discursar" - Cavaco Silva, Presidente da República

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"Teve uma vida de serviço público à causa da Cultura" - José Sócrates, Primeiro-ministro

"Grande perda para o cinema português" - Pinto Ribeiro, Ministro da Cultura

"Fundamental e insubstituível" - João Mário Grilo, Realizador

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"É um golpe profundo. Estou muito emocionado" - Manoel de Oliveira, Realizador

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