Sophia musa de Bethânia
A poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen foi a musa da cantora brasileira Maria Bethânia, que lhe dedica um dos seus dois novos discos. ‘Mar de Sophia’ é o título do álbum em causa, e tem lançamento previsto para Novembro, altura em que sairá também para o mercado o disco gémeo, baptizado de ‘Pirata’. Neste, Bethânia recupera também outro poeta português, no caso Fernando Pessoa.
Ambos os registos, cuja edição estava inicialmente agendada para este mês, versam sobre as águas. Apesar de ligados umbilicalmente, os discos serão vendidos em separado, à semelhança do que fez recentemente Marisa Monte, com os seus ‘Universo ao Meu Redor’ e ‘Infinito Particular’.
Mas é em ‘Mar de Sophia’ que Bethânia presta a sua homenagem à poetisa portuguesa, também ela uma apaixonada pela natureza e o mar em particular. De facto, vários são os títulos de obras suas que se referem ao oceano, com destaque para ‘Menina do Mar’.
A ideia da cantora brasileira em homenagear em disco Sophia de Mello Breyner tem já dois anos, pouco depois da morte da poetisa, a 2 de Julho de 2004.
Na ocasião, Bethânia confessou ser “uma grande admiradora do trabalho da poetisa portuguesa” e que estava certa de que o seu legado lhe proporcionaria “um lindo trabalho”.
Nos 15 temas do disco, e a partir da poesia de Shopia de Mello Breyner, Bethânia canta o mar, os símbolos e os mitos que lhe estão associados.
Os textos da poetisa portuguesa funcionam assim como pontes que unem os vários mares afectivos da cantora brasileira, que para o efeito se socorreu de alguns compositores, casos de Toquinho, Chico César e Arnaldo Antunes, entre outros.
Bethânia canta assim a religião africana, presente em ‘Canto de Oxum’ e ‘A Rainha do Mar’, as águas tépidas da Baía (‘Kirimurê’, ‘Memórias do Mar’ , a solidão dos homens do mar, ‘cantados’ em ‘Marinheiro Só’, do mano Caetano Veloso, ou ‘O Marujo Português’. Mas há mais: a poesia praieira de Caymmi, que ganha expressão em ‘Cantiga de Noiva’ e ainda a impossibilidade de se viver debaixo de água sugerida por Arnaldo Antunes em ‘Debaixo D’Água’.
o gémeo ‘Pirata’
O disco gémeo de ‘Mar de Sophia’, leva o título de ‘Pirata’ e é consagrado aos rios e às águas doces.
Neste registo, Maria Bethânia casa textos de Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto e Fernando Pessoa com temas populares, algumas regravações do seu próprio repertório e não só, e músicas originais, caso de ‘Sereia de Água Doce’, de Vanessa da Mata.
À semelhança de ‘Brasileirinho’ (2004), ‘Pirata’ é um disco em que Bethânia solta as suas memórias, recupera o universo folclórico e ‘mergulha’ nas águas dos rios do interior brasileiro.
O disco contém 14 faixas, com títulos como ‘Pedrinha Miudinha (História pro Sinhozinho’, ‘O Tempo e o Rio’, ‘Os Argonautas’ (Caetano Veloso), ‘Santo Amaro’, ‘Eu Que Não Sei Quase Nada do Mar’, ‘Água de Cachoeira’, ‘Onde Eu Nasci Passa um Rio’ (Caetano Veloso) e o inédito de Vanessa da Mata, ‘Sereia de Água Doce’.
- ‘Canto de Oxum’
- ‘Yemanjá Rainha do Mar/Beira Mar’
- ‘Marinheiro Só e O Marujo Português’
- ‘Poema Azul’
- ‘Kirimurê’
- ‘Grão de Mar’
- ‘Quadrinha: O Mundo é Grande; ‘Cirandas’
- ‘Debaixo D´água; Agora’
- ‘Memórias do Mar’
- ‘As Praias Desertas’
- ‘Dona do Raio: O Vento; A Dona do Raio e do Vento’
- ‘Lágrima’
- ‘Noiva: Cantiga da Noiva; Floresta do Amazonas’
- ‘Portela: Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite’
- ‘Canto de Nanã’
Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto a 6 de Novembro de 1919 e mesmo antes de aprender a ler já recitava Camões e Antero de Quental, ‘contagiada’ pelo avô. Escreveu os primeiros poemas com 12 anos e aos 21 anos casou com o jornalista Francisco Sousa Tavares. Mudou-se então para Lisboa, onde foi mãe de cinco filhos que a motivaram a escrever contos infantis. Em 1999 tornou-se na primeira escritora portuguesa a receber o Prémio Camões, o mais importante galardão literário da língua portuguesa.
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