“Sou um homem da não-esquerda”
João Gonçalves, jurista de profissão, é autor de um dos blogues mais populares de sempre, Portugal dos Pequeninos, que acaba de sair da blogosfera à conquista das livrarias.<br/><br/>
Todos os dias abre o computador, mas insiste em deixar claro que o faz por prazer e não por vício. Foi assim que, há uns cinco anos, descobriu Abrupto, o blogue de Pacheco Pereira. Foi o princípio da conversão ao ciberespaço.
"Tinha tempo e coisas para dizer. Conhecimentos não tinha, mas, por tentativa e erro, acabei por criar um primeiro blogue que funcionou como laboratório deste Portugal dos Pequeninos. O título resulta da relação de amor e ódio que temos com o País e uns com os outros. A raça é má, mas, como nas paixões, essa relação paradoxal de amor-ódio é muito estimulante. Sem ela não havia blogue nem livro", revela.
"É um livro que vive da contingência. É uma análise crítica e pessoal destes últimos anos, mas que não se esgota neles. Está lá a preocupação de ver para além da contingência destes quatro anos: porque somos como somos e estamos como estamos", diz o autor.
Para João Gonçalves a crónica curta e dura que pratica em Portugal dos Pequeninos não é nem pode ser tida como género literário: "Há um certo abastardamento da ideia de literatura. Nunca se escreveu tanto, tão mal e tão mau. A minha escrita é curta e grossa. Serve o propósito para a qual foi criada. Nada mais."
Feita a autocrítica à obra, elabora outro tanto ao autor. "Tenho mau feitio e tolerância em doses iguais. Sou um homem da não-esquerda até mais do que de Direita, mas as minhas cumplicidades políticas são muito mais com pessoas do que com ideologias. Finalmente, defino-me melhor pela negativa do que pela afirmativa", conclui.
PESSOAL
O MELHOR DE PORTUGAL
"Acontece sempre que há sol e mar. Sou um militante solar. Não sou de todo como o Torga e essa gente granítica. Tenho alergia a montanhas e afins."
O PIOR DE PORTUGAL
"A raça! Com uma raça destas, dificilmente vamos a algum lado. Mas há mais. O problema da nossa democracia é não ter conseguido, e já lá vão 35 anos, formar verdadeiras elites. Esse é o nosso maior défice, para além de não termos dinheiro e sermos periféricos. Também somos periféricos em elites."
O PORTUGAL IDEAL
"À semelhança de Gore Vidal, seria qualquer coisa como aquele em que a minha palavra tivesse força de lei."
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