Tim Burton produz novo fim do Mundo
O tom solipsista de uma criatura perdida num Mundo desfeito lembra ‘Wall-E’, um dos mais recentes triunfos da Pixar, só que aqui a história não é para toda a família. Já o lado negro das personagens e o ar desavindo do herói de serapilheira lembra-nos as obras de Tim Burton, embora em ‘9’ o realizador expressivo seja mero produtor, cedendo o lugar a Shane Acker.
Nesta animação futurista que se estreia esta quinta-feira nos cinemas, a mais-valia está mesmo na construção visual de bonecos e ambientes, na vertente de fábula tristonha e na concepção grosseira de um imaginário animado que não quer ser consensual como a maioria das grandes produções que se entretêm a dar novos rumos à arte dos píxeis em movimento.
‘9’ é um prodigioso e estilizado universo de almas perdidas, feito de personagens que se identificam por números, estranhas criaturas geradas por alguém que surge morto logo no início. Mas o número esconde uma individualidade. Que consegue ter esperança e fazer a diferença… Afinal, estamos no fim da Humanidade, num Mundo de cores amargas e onde as máquinas ganharam aos seus criadores, sendo a principal ameaça até para os vestígios de vida, personificados por bonecos de serapilheira, dos quais ‘9’ é a mais recente obra.
Se começa por se achar sozinho na Terra, rapidamente descobre que há outras criaturas como ele, que almejam a liberdade e lutam contra as forças maléficas que agem num contexto de nova revolução industrial, extremamente letal e organizada.
Neste pós-apocalipse só resta às curiosas figuras de olhar doce e ar de bonecos de trapos unirem-se e enfrentarem as ameaças, método que pode dar mais frutos do que maus presságios. Para tal, não basta a agilidade, é preciso ter estratégia…
Com uma mensagem simples, ‘9’ é eficaz e joga muito bem com os efeitos sonoros. Há cenas impressionantes de batalha que mostram que a animação já pode ir aonde quiser. Depois, os traços carregados das principais figuras comprovam que este é um trabalho de autor, uma animação cheia de carácter, ainda que o elemento humano esteja ausente de quase toda a história. Lembra, realmente, ‘Wall-E’, principalmente na ausência de diálogos (como nos dez primeiros minutos da acção) só que não procura tecer lições imediatas e é muito mais adulto no modo de expor as contrariedades.
Se há um defeito a apontar a ‘9’ é o facto de partir de uma curta-metragem. Ou seja, percebe-se que a vontade do realizador estreante é meritória mas há dificuldades em estender a acção por hora e meia. A missão do boneco protagonista esgota-se lá para o meio e o filme não evita alguns bocejos…
Apesar disso, o cuidado gráfico e a exploração sombria da acção eleva este trabalho, que demorou demasiado a estrear-se por cá – nos EUA chegou a 9 de Setembro de 2009… - e dá um novo sinal de que Tim Burton sabe onde apostar em matéria de produção. Nas vozes originais, mais um punhado de grandes estrelas: Elijah Wood, Jennifer Connelly, John C. Reilly, Martin Landau e Christopher Plummer passam por aqui.
Depois de ‘Coraline e a Porta Secreta’, ‘Nine’ é a proposta mais arrojada da animação de massas. Só essa ousadia já é digna de uma ida ao cinema.
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