Elmano Sancho reescreve o mito do sedutor
Encenador pinta 'D. Juan' como um homem que foge da morte. Espetáculo vai andar em digressão em maio.
Um espetáculo plasticamente imponente (cenário de Ana Paula Rocha e figurinos de José António Tenente), servido por uma componente física rigorosa (os atores têm uma presença coreográfica em cena e parecem dançar sobre as tábuas do palco), e um texto que nos obriga a repensar um clássico do século XVII que já conheceu mais versões do que as que conseguimos enumerar.
Eis o ‘D. Juan’ de Elmano Sancho, que pode ser visto este domingo no Teatro São Luiz, em Lisboa, de onde se despede para percorrer vários espaços do País. Em cena, Elmano Sancho (que assina texto e encenação) dá corpo ao protagonista, o sedutor sem escrúpulos, e admite que o mito que tantos criadores tem fascinado também o persegue.
“Há um lado sombrio na personagem com que todos nos identificamos”, justifica, ao CM. “No fundo, se nos déssemos autorização para quebrar regras, também teríamos a ousadia de ir ao encontro dos nossos impulsos”, acrescenta, sublinhando a pulsão de vida da figura. “D. Juan anda sempre de um lado para o outro, pula de mulher em mulher, no fundo, para fugir da morte. Há nele uma urgência que tem de ser entendida como pressa de viver, contra tudo e todos, antes que tudo acabe...”
Elaborado a partir da versão de Molière (1622-1673), o texto mistura deliberadamente os sexos (as atrizes dão corpo a personagens masculinas), para sublinhar que a procura do prazer e o apelo do poder não faz distinção de género. Para cúmplices neste trabalho, Elmano Sancho convidou um grande naipe de atrizes: Catarina Wallenstein; Joana Bárcia; Maria José Paschoal e Paula Neves dão-lhe a contracena e obrigam o espectador a repensar a dinâmica das relações humanas. ‘D. Juan’ segue para Torres Novas (dia 2 de maio); Famalicão (8 e 9); Ponte de Lima (15) e Barcelos (23).
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