UMA HISTÓRIA ESTRANHA E DEMASIADO ENVOLVENTE
Uma das estreias mais aguardadas dos últimos tempos, “Insónia”, prova que as obras dos grandes realizadores nem sempre apresentam uma estrutura coerente.
Isto porque “Insónia”, um “thriller” psicológico e de acção, recupera a marca do realizador Christopher Nolan - que se destacou com o aclamado “Memento” - mas angora num registo mais comercial.
Apesar de voltar ao tema da instabilidade psicológica, esta segunda obra - versão de um filme norueguês de 1997 - ultrapassa o estatuto de mero filme de arte para surgir como uma obra mais abrangente, capaz de competir com outros títulos da indústria. Com um elenco de notáveis, como Al Pacino, Robin Williams, Martin Donovan e Hilary Swank (vencedora de um Óscar por “Os Rapazes não Choram”) é um fim à moda de Hollywood.
Conflito e demência
Colada à versão original, mas com grande distanciamento da típica frieza nórdica, a película recupera alguns dos momentos míticos de “Twin Peaks”, de David Lynch, para mostrar uma história de crime, demência e conflito psicológico.
Will Dormer (Al Pacino), um detective com problemas de insónia e o seu companheiro Hap (Martin Donovan) são enviados para uma pequena cidade do Alasca para investigar a morte de uma adolescente. Forçado a entrar num jogo de gato e rato com o principal suspeito, ajudado pela polícia local (Hilary Swank) e magoado pelo excesso de luz do Sol da Meia Noite, o detective começa a sofrer de graves insónias e de uma perigosa instabilidade psicológica que o leva a grandes perturbações.
E aqui surge o que o filme tem de melhor. Um grande elenco encabeçado pelo genial Al Pacino. Desta vez, o actor que não consegue trabalhar mal cria uma personagem estranha e densa, exemplo acabado da sedução do mal, que transporta uma carga psicológica difícil de igualar.
Hilary Swank, inesquecível depois de ter interpretado o papel de uma transsexual em “Os Rapazes Não Choram”, surge aqui como a própria voz da consciência, enquanto Robin Williams volta a aproveitar as poucas oportunidades que tem fora da comédia para criar um escritor de livros de mistério obcecado com polícias.
A este fabuloso naipe de actores, Nolan junta os truques que o tornam seguro na realização. Por um lado, as cenas de insónia filmadas em quartos escuros e ambientes claustrofóbicos, que atingem níveis próximos do histerismo, por outro o uso e abuso do efeito grandioso da paisagem natural do Alasca, com “travellings” e postais do local. Destaque para a fotografia de Wally Pfister e para a rudeza de linguagem de algumas personagens.
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