Uma segunda vida

Quando ouvi os primeiros acordes de ‘Born of Frustration’ vieram-me as lágrimas aos olhos”, dizia ao CM uma jovem do Porto visivelmente emocionada. Luísa Soares estava convicta de que nunca mais iria voltar a ouvir essa canção ao vivo.

07 de agosto de 2007 às 00:00
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Por isso continuava arrepiada quando se seguiu ‘Tomorrow’ e assim se manteve até ‘Say Something’, tema com que findou o mais interessante concerto do último dia do Sudoeste 2007, anteontem à noite.

Separados há seis anos, o regresso dos James poderia afigurar-se estratégia financeira mas este espectáculo encarregou-se de desfazer as dúvidas. A banda de Tim Booth voltou recentemente aos grandes palcos e aos discos e trouxe temas novos como ‘Who are You’ e alguns inacabados, que demonstram uma séria vontade da banda em voltar a construir um futuro, dando um renovado contributo ao pop rock britânico.

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O que se perdeu em vivacidade ganhou-se em profundidade e maturidade, ficando provado que Portugal tem um significado especial para o grupo. Por cá deram memoráveis concertos, Saul Davies casou-se em Caminha e teve um filho no Porto, a irmã de Tim Booth vive em Vila Nova de Milfontes. Eles sentem-se em casa e as cerca de 30 mil almas que os ouviram e responderam com um sentido canto em uníssono “It’s You” fizeram questão de o confirmar.

Antes de entrar em cena, Saul recebeu o CM à mesa de jantar, confessou-se algo cansado e ainda dividido entre a vontade de ficar em casa com os filhos e o trabalho em estúdio associado ao rodopio da estrada. No final, depois de Tim Booth se ter despedido com a promessa de que “para o ano estaremos de volta”, nos camarins (ver entrevista) Saul revelou que esta segunda vida do grupo se deveu a uma ideia sua que faz questão de continuar a acalentar.

Antes da actuação dos James, Albert Hammond Jr abandonou o concerto 15 minutos antes da hora marcada e os Phoenix queimaram os seus melhores trunfos reduzindo alguns dos temas a metade do tempo que estes têm no disco.

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Enquanto isso, no Palco Planeta Sudoeste os Of Montreal apresentavam uma interessante performance baseada num teatro sonoro e os nova-iorquinos The National confirmaram que são um caso de culto das canções com travo a intimismo melancólico.

No balanço final fica comprovado que o Sudoeste vai além da música e que, independentemente da qualidade do cartaz, os festivaleiros continuarão a vir ao maior festival de Verão do País pelo convívio e pela semana de férias.

POSITIVO: MENU CHAO, O MELHOR EM 70

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Manu Chao chegou em primeiro lugar no final da maratona de 70 concertos. Os espectáculos no Palco Planeta Sudoeste mereceram nota bastante positiva. O ambiente do festival foi de boa disposição não havendo registo de actos de violência.

NEGATIVO: INVASÃO DE PATROCÍNIOS

Os cancelamentos de três espectáculos e a não comparência dos franceses Cassius, supostamente por terem perdido o voo. Um cartaz sem grandes nomes e a crescente invasão de marcas patrocinadoras e ligações do evento à publicidade.

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MAIS AO MENOS: BRINCADEIRA PERIGOSA

Enquanto para uns o bungee car foi uma atractiva invenção festivaleira, para outros a adrenalina provocada pela queda do carro suspenso é uma brincadeira de mau gosto. O cabo que partiu numa das descidas poderia ter tido consequências dramáticas.

"SINTO UMA MISTURA DE EMOÇÕES", Saul Davies, violinista dos James

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Correio da Manhã – O que representa estar de volta com os James?

Saul Davies – Estou surpreendido. Quando os James acabaram achei que parte da minha vida tinha morrido. Acredito que podemos voltar a fazer canções novas e interessantes, mas estou cansado por já não estar habituado a viajar a este ritmo.

– O que responde a quem pensa que regressaram por razões financeiras?

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– Decidimos que queríamos voltar a fazer música juntos. Mas uma banda como a nossa não pode sobreviver fora do mundo dos negócios.

– Ainda agora voltou à estrada mas parece que preferia estar em casa...

– Estar tranquilo em casa com a família a ver futebol e a beber um copo de vinho é um privilégio que acabou. Sinto uma mistura de emoções, como um boxeur que se reformou e, entretanto, decidiu voltar aos ringues.

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– Viveu quatro anos em Portugal e voltou a Inglaterra. Que marcas levou?

– A minha mulher é portuguesa, o meu filho nasceu cá. Parte de mim estará sempre ligada a este país onde as coisas acontecem devagar.

– Acredita que voltará a viver aqui?

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– Gostaria muito. Tenho muitos amigos e familiares portugueses e boas relações profissionais. Londres é muito louca.

– Que recordações guarda do concerto que os James deram neste mesmo palco em 1999?

– Após o concerto fui para a plateia ver os The Gift e um gajo que dançava perto acertou-me com o cotovelo, com força, no rosto. Aproximei-me e disse: “Filho da p… que te vou matar!” Ele reagiu mas então constatou quem eu era e pediu muitas desculpas. Acabei por convidá-lo e à namorada para visitarem o nosso camarim.

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