VOU LEVAR O ESTADO A TRIBUNAL E VOU GANHAR
Celso Cleto, encenador conhecido por sucessos como ‘Os Monólogos da Vagina’ ou ‘A Educação de Rita’, não recebeu subsídio para este ano.
Correio da Manhã – O concurso de apoio às artes de 2004 tem sido dos mais contestados de sempre...
Celso Cleto – Tem sido contestado porque está cheio de irregularidades. No ano passado, o secretário de Estado da Cultura (Amaral Lopes) anunciou que o concurso para 2004 deveria ter início no final de 2003. Ora o concurso só abriu em Março deste ano. Depois, o júri demorou cinco meses a analisar os processos e entretanto tinha passado metade do ano. Finalmente, gerou-se a maior confusão quando um dos elementos do júri se demitiu e o concurso prosseguiu mesmo assim.
– Qual foi a razão invocada para recusarem o seu pedido de apoio?
– Escreveram-me uma carta a dizer que não tinha apresentado alguns documentos, que, aliás, nunca foram pedidos.
– A razão da recusa não foi, portanto, de ordem artística?
– Não, foi meramente burocrática. Não passámos da secretaria. Queriam um papel de Bragança ou de Faro, com os presidentes das câmaras a dizerem que aceitam o meu espectáculo? Eu trabalho com as câmaras há anos, tenho compromissos com essas pessoas.
– ‘Os Monólogos da Vagina’, com Guida Maria, e ‘A Educação de Rita’, com Sofia Alves correram o País...
– ... E outros espectáculos. Temos ido a sítios onde mais ninguém vai.
– O dinheiro ganho com as digressões não dá para financiar o próximo espectáculo?
– Preciso do apoio do Estado para arrancar um projecto para oito actores e um total de 15 pessoas. Até aqui tenho montado espectáculos de baixo custo, com poucos actores, e tenho vivido da bilheteira. Com oito actores, é impossível.
– Pedi 55 mil euros e comprometi-me a entrar com 30 e tal mil. Isto para seis meses de trabalho. Não estamos a falar de um projecto de 15 dias para o Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, mas de um espectáculo para ser visto por milhares de pessoas por todo o País. E eu encho os teatros todos por onde passo.
– Em que é que consiste exactamente o seu projecto?
– Quero fazer três trilogias a partir dos clássicos: Ibsen, Strindberg e Tchekov. A primeira peça seria a ‘Hedda Gabler’ com cenários e figurinos do José Costa Reis e um elenco onde pontuam Sofia Alves, Tó Zé Martinho, Delfina Cruz e Cremilda Gil.
– Vai abandonar a ideia?
– Vou, provavelmente, ter de atrasá-la. Mas tenho compromissos que quero honrar e não vou baixar os braços.
– É impossível conseguir mecenato?
– Dada a situação do País, é. Para mim, este concurso devia ser anulado e eu vou tentar que tenha assento em tribunais. As pessoas têm de saber o que é que se passa.
– Há matéria para acusação?
– Há. Vou levar o Estado a Tribunal e vou ganhar. O ministro esconde-se atrás do secretário de Estado, este atrás do Presidente do Instituto das Artes (IA), este atrás do júri... Agora o Governo mudou e o presidente do IA foi de férias. É inadmissível!
Celso Cleto tem o Curso de Formação de Actores da Comuna. Estreou-se como actor aos 17 anos, no Teatro Experimental de Cascais, e como encenador no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. Foi, durante oito anos, adjunto de Carlos Avilez quando este era director do Teatro Nacional D. Maria II. Fundou a Companhia de Teatro Público, com a qual tem corrido o País com espectáculos de grande sucesso. Foi o primeiro encenador português a ser convidado a encenar em Espanha. É casado com a actriz Sofia Alves.
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