VOU LEVAR O ESTADO A TRIBUNAL E VOU GANHAR

Celso Cleto, encenador conhecido por sucessos como ‘Os Monólogos da Vagina’ ou ‘A Educação de Rita’, não recebeu subsídio para este ano.

03 de agosto de 2004 às 00:00
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Correio da Manhã – O concurso de apoio às artes de 2004 tem sido dos mais contestados de sempre...

Celso Cleto – Tem sido contestado porque está cheio de irregularidades. No ano passado, o secretário de Estado da Cultura (Amaral Lopes) anunciou que o concurso para 2004 deveria ter início no final de 2003. Ora o concurso só abriu em Março deste ano. Depois, o júri demorou cinco meses a analisar os processos e entretanto tinha passado metade do ano. Finalmente, gerou-se a maior confusão quando um dos elementos do júri se demitiu e o concurso prosseguiu mesmo assim.

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– Qual foi a razão invocada para recusarem o seu pedido de apoio?

– Escreveram-me uma carta a dizer que não tinha apresentado alguns documentos, que, aliás, nunca foram pedidos.

– A razão da recusa não foi, portanto, de ordem artística?

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– Não, foi meramente burocrática. Não passámos da secretaria. Queriam um papel de Bragança ou de Faro, com os presidentes das câmaras a dizerem que aceitam o meu espectáculo? Eu trabalho com as câmaras há anos, tenho compromissos com essas pessoas.

– ‘Os Monólogos da Vagina’, com Guida Maria, e ‘A Educação de Rita’, com Sofia Alves correram o País...

– ... E outros espectáculos. Temos ido a sítios onde mais ninguém vai.

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– O dinheiro ganho com as digressões não dá para financiar o próximo espectáculo?

– Preciso do apoio do Estado para arrancar um projecto para oito actores e um total de 15 pessoas. Até aqui tenho montado espectáculos de baixo custo, com poucos actores, e tenho vivido da bilheteira. Com oito actores, é impossível.

– Pedi 55 mil euros e comprometi-me a entrar com 30 e tal mil. Isto para seis meses de trabalho. Não estamos a falar de um projecto de 15 dias para o Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, mas de um espectáculo para ser visto por milhares de pessoas por todo o País. E eu encho os teatros todos por onde passo.

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– Em que é que consiste exactamente o seu projecto?

– Quero fazer três trilogias a partir dos clássicos: Ibsen, Strindberg e Tchekov. A primeira peça seria a ‘Hedda Gabler’ com cenários e figurinos do José Costa Reis e um elenco onde pontuam Sofia Alves, Tó Zé Martinho, Delfina Cruz e Cremilda Gil.

– Vai abandonar a ideia?

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– Vou, provavelmente, ter de atrasá-la. Mas tenho compromissos que quero honrar e não vou baixar os braços.

– É impossível conseguir mecenato?

– Dada a situação do País, é. Para mim, este concurso devia ser anulado e eu vou tentar que tenha assento em tribunais. As pessoas têm de saber o que é que se passa.

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– Há matéria para acusação?

– Há. Vou levar o Estado a Tribunal e vou ganhar. O ministro esconde-se atrás do secretário de Estado, este atrás do Presidente do Instituto das Artes (IA), este atrás do júri... Agora o Governo mudou e o presidente do IA foi de férias. É inadmissível!

Celso Cleto tem o Curso de Formação de Actores da Comuna. Estreou-se como actor aos 17 anos, no Teatro Experimental de Cascais, e como encenador no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. Foi, durante oito anos, adjunto de Carlos Avilez quando este era director do Teatro Nacional D. Maria II. Fundou a Companhia de Teatro Público, com a qual tem corrido o País com espectáculos de grande sucesso. Foi o primeiro encenador português a ser convidado a encenar em Espanha. É casado com a actriz Sofia Alves.

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