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Correio da Manhã

Cultura
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18 ATÉ MORRER

Chegou a temer-se o pior. Depois de um concerto inacabado em Madrid e de um outro cancelado no Porto por causa de um problema de voz, Bryan Adams ainda fez recear pelo concerto de Lisboa, no Pavilhão Atlântico, quando, logo no início do espectáculo, terça-feira à noite, levou as mãos à garganta. Nada mais do que um susto.
27 de Fevereiro de 2003 às 00:00
Contas feitas, já no final da noite, o autor de “Cuts Like a Knife” não só cantou e gritou ao longo de mais de duas horas e meia (com cinco “encores” incluídos) como ofereceu um dos melhores espectáculos de que há memória no nosso País nas suas variantes “empatia e interacção com o público”, “performance e interpretação”, “alinhamento”, “rigor técnico” e “diversão”. A esta altura só não o reconhecerá quem, eventualmente, fizer questão em preservar algum tipo de preconceito estereotipado (tipo “ódio de estimação”) contra o cantor, as suas canções e a sua carreira.

Sem qualquer trabalho de originais editado recentemente, é certo que Bryan Adams tinha, à partida, o espectáculo ganho (todos sabiam que a noite ia contemplar os grandes “hits” do passado), mas não é menos verdade que o cantor fez mais do que aquilo que se exigia ou se esperava.

ROCKER SEM IDADE

Aos 44 anos Bryan Adams continua igual a si mesmo, como sempre o conhecemos, como sempre fez questão de se apresentar: um “rocker” sem idade, tempo ou hora para acabar. Em Lisboa, com ou sem guitarra, ora acústica ora eléctrica, subindo e descendo colunas, o canadiano esteve incansável como, de resto, as cerca de 17 mil pessoas presentes que só o deixaram ir embora ao quinto “encore”, quando para trás já haviam ficado aqueles temas que todos esperavam ouvir, de “Summer of ‘69” (mesmo em versão acústica) a “Heaven”, passando por “Tonight”, “Somebody”, “Straight From the Heart” ou “Run To You”. Será que o rock está velho?

Acompanhado por um “senhor” guitarrista (tão ou mais velho do que ele) chamado Keith Scott, que já tocou com, entre outros, Bryan Ferry, Glass Tigger, Bonnie Raitt ou Tina Turner, Bryan Adams não se contentou com um só palco e logo ao primeiro “encore” fez questão de atravessar meio Atlântico (o Pavilhão) e aparecer num outro montado a rigor no centro do recinto. Não contente, ainda chamou umas 20 jovens para dançarem consigo.

MAU ENVELHECER?

Da sua carreira, dos já remotos e saudosos anos 80, ficou-me um tema que hoje lhe serve como uma luva: “No One Makes It Right Like You Do”, que é como quem diz “o rock não é para quem quer, é para quem sabe”, ou numa tradução mais livre, “afinal não é assim tão mau envelhecer”.

Numa das mais afectuosas manifestações de interacção com o público de que nos recordamos, Bryan Adams conquistou um dos momentos da noite quando chamou para cantar consigo uma jovem da assistência, de nome Francisca, que supostamente deveria tomar o lugar de Mel C no tema “When You’re Gone”. Mas fê-lo melhor.

NO MEU TEMPO

Ao longo do espectáculo, Bryan relembrou todas as fases da sua carreira e fez alinhar, entre outros, temas como “One Night Love Affair”, “Here I Am”, “18 ‘til I Die”, “Can’t Stop this Thing We Started” (nós também achamos), “Back To You”, “Cuts Like a Knife”, “Im Ready” ou “The Way You Make Me Feel”, alguns deles da altura em que ainda se dançavam “slows”. Pelo menos no meu tempo era assim... Volta Bryan!

JOÃO PEDRO PAIS: 'O BRYAN PEDIU-ME UM AUTÓGRAFO'

Assim que João Pedro Pais acabou a sua actuação (ele esteve incumbido de fazer as primeiras partes dos concertos ibéricos de Bryan Adams), ocorreu-nos uma “heresia”: Será que alguém se lembraria de pôr o Bryan Adams a fazer a primeira parte do João Pedro Pais?

Isto apenas e só para dizer que o cantor português foi ontem, para todos os que lá estiveram, um verdadeiro orgulho nacional (para nós inclusive). Depois de ter ouvido 14 mil pessoas juntas em Madrid a cantar “Louco Por ti”, João Pedro Pais colocou o enorme Pavilhão Atlântico debaixo do braço e, com um à-vontade incrível, fez alinhar os temas “Um Pouco de Ti”, “Mais Uma Vez”, “Deixa Cair”, “Nada de Nada”, “Não Há”, “Um Resto de Tudo”, “Mentira”, “Louco Por Ti” e “Corpos”.

“Foi um concertão”, disse-nos ontem o músico que só em Lisboa conheceu Bryan Adams. “É um miúdo com 44 anos”, declarou, revelando que o cantor canadiano lhe pediu um autógrafo. “Eu dei-lhe um disco meu ainda com o plástico. Ele abriu-o, tirou o ‘in-lay’ e pediu-me para assinar”.
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