Ator Adérito Lopes foi agredido por um indivíduo que fazia parte de um grupo de cerca de 30 elementos, defensores de ideais neonazis.
A atriz, encenadora e cofundadora de A Barraca Maria do Céu Guerra defendeu esta quarta-feira a necessidade de se fazer respeitar a Constituição, considerando um ato "terrorista", feito na "clandestinidade", a agressão na terça-feira a um ator da companhia .
"Nós temos a obrigação de fazer cumprir também a Constituição, porque aquilo que se faz clandestinamente - porque estes ataques são completamente terroristas - [...] têm de ser punidos", sustentou Maria do Céu Guerra.
A encenadora falava em frente ao Cinearte, em Lisboa, onde, na terça-feira, o ator Adérito Lopes foi agredido por um indivíduo que fazia parte de um grupo de cerca de 30 elementos, defensores de ideais neonazis.
O ator foi agredido depois de uma das atrizes de A Barraca, que usava uma 't-shirt' preta com uma estrela vermelha, ter sido agredida verbalmente por elementos do grupo com palavras de teor machista e por motivações políticas. Uma pessoa que assistiu a estas agressões contou hoje à agência Lusa que relacionavam a t-shirt com Che Guevara.
"Não se pode pegar no malandrinho que espancou ali a cara de um ator", porque o rosto de um ator "é o seu material de trabalho", sublinhou Maria do Céu Guerra, defendendo que não podemos limitar-nos a apresentar o agressor na esquadra, fazê-lo "assinar um papelinho" e depois soltá-lo.
O responsável pela concentração, Rui Manuel, disse que tomou a iniciativa, para hoje à tarde, em frente ao Cinearte, como cidadão, em solidariedade para com o ator agredido, como "uma reação de pele", afirmou, alegando ser necessário lutar e impedir que situações semelhantes aconteçam.
"Por vós, por nós, pelos meus filhos, pelos meus netos", disse Rui Manuel, que se fazia acompanhar por um pequeno grupo de jovens, alguns dos quais com formação de ator e atores independentes.
Um dos jovens atores justificou a presença com a preocupação pelo ocorrido, alegando que se trata "algo horrível de se ouvir".
"Deixa-nos a nós todos preocupados. Sou de Aveiro, vim para Lisboa também tentar arranjar trabalho, estudar e de repente uma notícia destas deixa-nos a pensar no estado do país e como é que as coisas se vão desenvolver, deixa-nos preocupados também por este espaço", enfatizou.
A atriz e encenadora Rita Lello contou aos jornalistas o ocorrido na terça-feira. O incidente, disse, aconteceu após um almoço que, pelo segundo ano consecutivo, reuniu elementos neonazis num restaurante a escassos metros do teatro.
Rita Lello disse ainda que os elementos deste grupo traziam autocolantes que colocaram nos postes públicos de eletricidade, junto ao teatro, e que entretanto já foram retirados.
Segundo a atriz, os autocolantes tinham um 'QR-code' que remetia para o grupo fascista Reconquista.
A agência de Adérito Lopes informou a CNN Portugal que o ator teve alta durante a madrugada, depois de ter sido suturado com vários pontos no rosto, encontrando-se, de momento, em casa a recuperar.
Hoje à tarde, no Cinearte, estiveram também a deputada única do PAN, Inês Sousa Real, e o deputado do Livre Paulo Muacho.
Os políticos vieram manifestar a sua solidariedade para com o ator agredido e a companhia, tendo-se reunido com elementos de A Barraca no interior do teatro.
Os dois deputados recordaram que há mecanismos na Constituição da República Portuguesa que permitem declarar estes tipos de grupos como "fascistas e/ou terroristas".
O Livre e o PAN apresentaram hoje no parlamento dois votos de condenação pelas agressões à companhia A Barraca e a um dos seus atores, por um grupo de extrema-direita, manifestando "profundo repúdio" por este "gesto de grave violência, intolerância e ódio."
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