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Correio da Manhã

Cultura
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A arte de contar histórias

É possível que o novo disco dos britânicos Saint Etienne ganhe um novo sentido depois dos atentados terroristas do passado dia 7 – afinal, ‘Tales From Turnpike House’, publicado em Inglaterra a 13 de Junho, mais não é do que um álbum conceptual que descreve a vida, comum, corriqueira, trivial, mas nem por isso desinteressante, dos habitantes de um prédio de apartamentos. Em Londres.
24 de Julho de 2005 às 00:00
Os Saint Etienne
Os Saint Etienne FOTO: d.r.
Tudo é conduzido com os trunfos habituais do trio, capaz há pelo menos uma dezena e meia de anos de seduzir adeptos em núcleos com gostos bem diferenciados.
Voltamos a descobrir o espírito retro da ‘swinging London’ dos anos 60 aliado à electrónica, aos beats, mas também aos arranjos que fazem de Sarah Cracknell, Bob Stanley e Pete Wiggs uma banda apontada como chique (no sentido de elegante). Cruza-se o disco sound mais primário com momentos de vocalização dignos dos Beach Boys. Juntam-se arquétipos do ‘easy listening’ com momentos em que o funk é a regra essencial. Tudo, mas mesmo tudo, dentro de um quadro que torna as tais histórias, as suas vidas, anseios, paixões, absolutamente magnéticas.
Logo nas três primeiras canções – ‘Sun In The Morning’, ‘Milk Bottle Symphony’, ‘Lightning Strikes Twice’ – fica claro que este ‘Tales From Turnpike House’ vai afinar pelo optimismo, pela leveza de processos, por um vale tudo que poderia ser desastroso em mãos menos sábias: viola acústica, flauta, órgão, percussão, sintetizadores, coros ‘californianos’ e refrão em ‘lá-lá-lá’, violoncelo, bateria, ‘loops’ electrónicos.
Sejamos claros: sendo um ‘concept album’, pode recomendar-se a audição continuada, para não perder pitada das rotinas da vida em comunidade. Melhor: em vizinhança, que comunidade pressupõe algo mais. Mas, e essa é a vantagem para os que preferem os Saint Etienne como luxuosos praticantes das qualidades intrínsecas do tema pop de três minutos, e chega, cada um dos temas vale por si. Atente-se em ‘Side Streets’, por exemplo: é uma obra-prima de suavidade, com a voz de Sarah Cracknell a recuperar a pureza quase juvenil dos melhores dias. Ou, mais adiante, no funk de marca que torna ‘Stars Above Us’ noutro pedaço de eleição. As duas canções de fecho, ‘Teenage Winter’ e ‘Goodnight’ são construídas com a mesma linearidade e, por arte e talento dos seus criadores, acabam por desaguar numa foz de esplendores.
Convém acrescentar que, na primeira edição, ‘Tales…’ se faz acompanhar de um segundo disco, seis temas sob o título genérico ‘Up The Wooden Hills EP’. O que significa, para os adeptos da causa, mais 16 minutos de pequenos luxos e intensos prazeres. Talvez os Saint Etienne tenham finalmente assimilado que a sua investida anterior, ‘Finisterre’, não passava de um pão seco, apesar de bem decorado, ao lado dos delicioso ‘croissants’ a que nos habituaram mal. Desta vez, optaram por ser generosos e não falharam.
Para Londres e para os seus dias de angústia, ‘Tales From Turnpike House’ pode muito bem funcionar como uma banda sonora de terapia. A melhor música pop, como a que é oferecida pelos Saint Etienne, consegue ter efeitos surpreendentes. Experimentem, que vale a pena.
TOCA A TODOS
Ainda há oito dias aqui falava da dificuldade do humor que não caminhe no sentido contrário da qualidade das canções: aí está ‘Um Tanto Ou Quanto Atarantado’, que apresenta OS AZEITONAS. Letras que, nalguns casos, escangalham a rir, casam com músicas a valer, recheadas de pormenores de requinte na produção. Aconselhável para descongestionar ‘estresses’, tem a vantagem de dispor de potenciais êxitos de Verão: o tema-título, ‘As Bifas de Albufeira’, ‘Hooligan do Aleixo”. Ouçam sem preconceitos.
Mais uma frescura, daquelas que faz acreditar no triunfo das canções: ‘All Yours’, outro disco de estreia, no caso a da francesa SOPHIE DELILA. Canta em inglês e divide-se por funk, reggae, soul, pop, balada, mas tudo orgânico, sem corantes nem conservantes, sem cargas de maquilhagem que impeçam o prazer de cantigas simples, muitas delas com refrão estratégico. A jovem compõe e toca quase tudo, a sua voz – ainda em maturação – já é uma agradável surpresa. Ideal para viagens com calor.
TOCA E FOGE
Os reis vão nus. Só mesmo a militância dos espectadores de ‘Morangos com Açúcar’ explica o êxito dos D’ZRT, a ‘boys band’ que estende os tentáculos do negócio da série. Como actores, a coisa já não prometia muito. Como cantores, são nulos. Não sei o que é o pior: se os arremedos de rap metidos a martelo, se o assassínio de ‘I Don’t Want To Talk About It’, se a circunstância de ‘D’zrt’ andar a fazer frente aos Humanos. Ora ‘género humano’ não se confunde com ‘Manuel Germano’. Pobre de doer.
Atenção: ‘Back To Bedlam’, álbum de estreia do britânico JAMES BLUNT, é um dos melhores discos que ouvi este ano. Está deste lado só porque ainda não chegou cá. Antigo soldado, Bedlam não é um pacifista feito à pressão – antes um observador consciente. Já nas matérias do coração, foge da banalidade como o diabo da cruz. E ‘High’, ‘You’re Beautiful’, ‘Wisemen’, ‘Out Of My Mind’, ‘No Bravery’ são mesmo canções enormes. Quem gostar de Jack Johnson e de DBadly Drawn Boy, vai amar. Para quando?
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