Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura
4

A arte de transformar

Sabia que uma queimadura no grande ecrã é feita de papel de guardanapo? Ou que um actor que aparece 20 quilos mais gordo tem apenas vestido um fato de espuma e látex?
3 de Novembro de 2005 às 00:00
Marly Perez aplica uma máscara de latex com cola especial para criar um rosto monstruoso numa jovem portuguesa
Marly Perez aplica uma máscara de latex com cola especial para criar um rosto monstruoso numa jovem portuguesa FOTO: Sérgio Lemos
No cinema, no teatro ou na televisão, os caracterizadores de efeitos especiais trabalham atrás das câmaras mas nem por isso deixam de ser verdadeiros ‘magos’: a sua a função é transformar a realidade dos rostos e dos corpos e fazer com que o espectador acredite da ilusão.
Em Portugal, onde projectou um curso num instituto de ensino superior, a brasileira Marly Perez, especialista de efeitos especiais da equipa de Mário Campioli, que trabalha regularmente com a TV Globo nos estúdios Projac, desvendou alguns segredos do complexo mundo da ficção.
Tendo como função ajudar actores e realizadores a criar uma personagem ficcional, os caracterizadores trabalham a par e passo com o guião. “Mudar as feições de um rosto não é apenas um trabalho estético. Há que ter em conta o carácter da personagem, realizar um grande trabalho de pesquisa a nível de época (criar uma personagem fantástica do séc. XVII é totalmente diferente de uma actual). Mas o mais importante é a intensidade da cena, sobretudo as de cariz dramático”, explicou ao CM.
Para parecer real, uma cena de tiroteio, por exemplo, exige especial coordenação da equipa: “Há diversos cuidados a ter: o lado em que a bala perfura o corpo, a posição do actor que dispara a arma, a forma como o actor atingido cai no chão. Todos esses factores determinam o tipo de ferimento que vamos criar”, adiantou.
Também a nível de materiais este é um universo extremamente variado, onde os produtos mais sofisticados (como o botox, o látex ou o silicone) se misturam com outros mais vulgares, como o papel, as gases, as tintas, as colas ou as argilas. O sangue, por exemplo, não é só ‘ketchup’, como é costume dizer-se na brincadeira, mas antes uma mistura de cola e tintas especiais de cores, que vai do vermelho vivo (nas hemorragias) ao bege (para simular o pus), enquanto a pele queimada é apenas papel de guardanapo tingido.
A maioria das trabalhos, porém, não é feita directamente no corpo, tanto para ‘poupar’ o actor como para tornar a preparação das cenas mais rápida. “Utilizamos quase sempre máscaras feitas de látex, tão finas que ninguém diria que não são pele verdadeira. O primeiro passo é tirar o molde do rosto do actor/actriz para que a máscara fique completamente colada à pele. Dependendo da complexidade, a sua construção pode levar até sete horas. Depois, é só aplicá-la à pele de forma a que o público não dê por ela”, descreveu.
Outros efeitos especiais, como o envelhecimento, as técnicas de aumento de peso, a criação de monstros ou de extraterrestres, por exemplo, exigem a extensão do trabalho de caracterização ao resto do corpo. Nestes casos recorre-se a técnicas mais complexas como a aplicação de próteses, silicone, gesso, fatos de espuma, enfim, tudo o que a imaginação ditar e servir o objectivo.
“Nesta profissão há uma grande componente criativa mas também de investigação, sobretudo a nível dos materiais. Estão sempre a aparecer produtos e ténicas novas, mas é preciso estudá-los bem antes de os colocar ao serviço da caracterização. Até porque se colocarmos em risco a integridade física do actor é o fim da nossa carreira”, acrescentou.
CURIOSIDADES
A TORTA DA MÃE
Um dos mais famosos especialistas de efeitos especiais de Hollywood, Rick Baker, responsável pela caracterização de filmes como ‘Guerra das Estrelas’ e ‘Planeta dos Macacos’, descobriu a sua vocação em criança: aos 12 anos usou a massa da torta feita pela mãe para caracterizar os amigos.
CORCUNDA COM 9 KG
Para vestir a pele do corcunda de Notre Dame na versão do clássico de Victor Hugo realizada em 1923, o actor Lon Chaney usou uma prótese que pesava nove quilos.
DORMIR COM O MONSTRO
Boris Karloff, que fez de Frankestein no filme de 1931, preferia dormir com a maquilhagem do que ter de passar todos os dias pelo penoso e demorado processo de caracterização. Para não estragar a monstruosa cara, dormia de costas com a cabeça apoiada sobre dois livros.
O SENHOR DOS EFEITOS
A equipa de caracterização da trilogia ‘O Senhor dos Anéis’ trabalhava 24 horas por dia (por turnos) durante as filmagens. E quando não estavam a maquilhar os actores estavam a fabricar os milhares de máscaras e próteses.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)