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Correio da Manhã

Cultura
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A arte surge quando menos se espera

Prestes a regressar a palcos lusos (Julho, em Vilar de Mouros), Peter Murphy fala sobre o novo disco, ‘Unshattered’. Conversador nato, aborda ainda a sua conversão ao islamismo e a paixão pela Turquia, onde vive há 12 anos.
16 de Maio de 2005 às 00:00
Correio da Manhã – Com o novo disco, ‘Unshattered’, volta ao formato da canção pop. É um álbum de reencontro?
Peter Murphy – Essa ligação acontece porque este é um álbum em que o factor dominante é a melodia. Melodias que se encaixam nas canções de uma forma muito simples, muito pop. Mas é também um disco muito experimental, que foi gravado numa atmosfera especial. Esse é outro denominador comum a todas as canções, além de terem sido feitas de uma forma espontânea.
– Que atmosfera especial é essa?
– Este é o álbum que trazia em mente há muitos anos. Na verdade, é o disco que sempre desejei fazer desde que me mudei para a Turquia e me tornei muçulmano. É um disco muito mais interior, cheio de reflexões e sentimentos muito pessoais e, por todas essas razões, muito puro.
– Talvez por isso, está repleto de sons mais orgânicos, como as harmónicas, as guitarras acústicas...
– Esses instrumentos foram gravados ao vivo e posteriormente inseridos no disco. ‘Unshattered’ foi gravado em apenas um mês, num espírito muito livre e sem preconceitos artísticos.
– Voltou a trabalhar com um velho colaborador, Paul Statham, e também com o ex-Bauhaus, Kevin Haskins. Como surgiram estas colaborações?
– Kevin participa em ‘Blinded Like Saul’, uma das canções que escrevi no ano 2000, quando voltei a fazer uma digressão com os Bauhaus. Creio que quis capturar a essência e a energia do grupo após a digressão numa situação de escrita. Com o Paul Statham sempre tive uma sintonia extraordinária, que se mantém, mesmo apesar de não trabalhar com ele desde 1994. Mas neste disco não escrevi só com pessoas que já conhecia. Também convidei músicos com quem nunca tinha trabalhado e que muito contribuíram para o resultado deste álbum. Graças a eles, aliás, encontrei algo que julgava perdido.
– O que julgava ter perdido?
– Hum... nem sei bem explicar, mas tem a ver com a atmosfera que se viveu em estúdio. Uma espécie de energia que a todos deu imenso prazer.
– As canções, por seu turno, traduzem reflexões muito pessoais.
– Por isso é o álbum que sempre quis fazer mas que só foi possível depois de 12 anos a viver na Turquia. ‘Face Of The Moon’, por exemplo, é uma canção que fala sobre o facto de ser uma estrela rock e, por isso, estar sempre rodeado de belas mulheres. Quando se é famoso, somos também ricos a nível de relações interpessoais, absorvemos a atenção de qualquer mulher, porque elas são atraídas pelo ‘brilho’ que transmitimos. Não é, certamente, pelo meu aspecto físico [risos]. Há uma tradição muçulmana que diz que a Lua é o reflexo do Sol, sendo o Sol a luz de Deus. Outro exemplo é ‘Idle Flow’, um tema sobre o curioso equilíbrio que deve existir na vida de qualquer artista ou pessoa que desenvolve um trabalho criativo: cada vez que se força uma ideia, ela não acontece. A arte surge quando menos se espera, sem interferência ou vontade própria. Por outro lado, fala também do equilíbrio entre o mediatismo e a vida privada. Vivo intensamente a minha actividade como intérprete e ‘performer’ e esta canção fala também da separação que deve haver entre o artista e o homem, o marido, o pai, o amigo.
– Por que foi viver para a Turquia? Como é ser um cidadão ocidental num país muçulmano?
– A minha mulher é turca. Conheci-a em Londres e, nessa época, tive a oportunidade de visitar a Turquia. Logo ao chegar, senti algo muito especial. Uma atracção que não sei explicar. E percebi que aquela era a minha casa. Não é complicado ser ocidental num país diferente. É só preciso sentir uma profunda paixão pelo país e pela sua cultura.
– Esse sentimento está muito presente no disco?
– Em todo o disco, mas num tema em especial: ‘Blinded Like Saul’, canção que fala de um momento de revelação, que transformei numa metáfora – o momento em que se vê a mulher que vamos amar pela primeira vez. É uma espécie de celebração da vida.
UM ÉPICO RODEADO DE CANÇÕES POP
Para qualquer músico, o seu último disco (fresquinho no mercado) é, invariavelmente, o melhor da carreira. Peter Murphy não é diferente mas, na entrevista acima, afirma-o com uma gélida subtileza: “É o álbum que trazia em mente há muitos anos.” O que não significa que seja o melhor da sua carreira. ‘Unshattered’ é, na verdade, um belo disco, épico, até, a espaços, recheado de canções pop melodiosas, mas ‘mellow’... demasiado! É certo que o homem amadureceu e isso poderá explicar muita coisa mas, na verdade, ’Unshattered’ não consegue o impacto emocional de outros registos da sua carreira. Falta, sobretudo, densidade, mistério, negritude, o ‘bafo gélido’ que gerou, por exemplo, quando nos visitou pela última vez, há uns anos, no Festival Sudoeste. A conferir, portanto, em Vilar de Mouros.
PERFIL
Apesar de ser um dos grandes senhores da música independente, quando se fala de Peter Murphy é impossível separá-lo do percurso trilhado com os míticos Bauhaus, ainda uma das maiores referências no meio alternativo. Terminada a colaboração com a banda, formou os Dali’s Car (com o ex-Japan Mick Karn), projecto do qual resultou ‘The Waking Hour’ (1984). A estreia a solo aconteceu um ano depois com a edição de uma versão de ‘The Light Pours of Me’ (original dos Magazine) para a compilação ’The State of Things’. A solo, editou ‘Should the World Fail to Fall Apart’ (1986), ‘Love Hysteria’ (1988), ‘Deep’ (1990), ‘Holy Smoke’ (1992), ‘Cascade’ (1995), ‘Wild Birds 1985-1995’ e ‘Dust’ (2002).
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