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Correio da Manhã

Cultura
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A COR PODEROSA DA PELE

A noite de sábado do Festival do Sudoeste teve início antes do sol se pôr com a actuação dos jamaicanos Sly & Robbie e a sua batida reggae e dub que faz a apologia da cultura Rastafari e da marijuana.
11 de Agosto de 2003 às 00:00
A COR PODEROSA DA PELE
A COR PODEROSA DA PELE FOTO: Nuno Jorge
Tudo tinha corrido muito bem, não fosse, à hora certa, e com o guitarrista em palco, a organização ter interrompido a actuação do grupo substituindo a música pela poluição sonora e visual. Conclusão: o público revoltou-se, ouvindo-se, em uníssono, uma estrondosa assobiadela.
Quando David Fonseca entrou em cena, no ar circulava uma nuvem de pó misturada com fumo e nevoeiro o que condizia com a música do jovem de Leiria e companheiros de palco. Com os temas a alternarem entre a lamechice e a candura sonora, o concerto teve como momento áureo a arrepiante versão de "Someone That Cannot Love".
Na plateia, uma adolescente não se contém e deixa soltar algumas lágrimas enquanto é acariciada pelo namorado que, visivelmente, também se deixa comover.
Seguiu-se Beth Orthon e o pior concerto do festival até à data. Acompanhada por contrabaixo, violoncelo, violino, melancolia e muito aborrecimento, a cantora fez com que muita gente deixasse de a ouvir, optando por se dirigir à tenda "Planeta Su- doeste" onde DJ Kitten, "a.k.a." João Vieira, destilava sensibilidade sono- ra, mistura de estilos e temas sobrepostos nem sempre sincronizados com as imagens do ecrã.
A BORBOLETA E A SEDUÇÃO
O triunfo dos Morcheeba começa na voz pequena e calorosa de Skye Edwards, na atitude ecléctica, na opção por um som humano, despreocupado, o que faz com que os concertos do grupo lembrem um pauzinho que se arrasta pela corrente de um rio. Tudo muito sereno, lindo e afectuoso.
Finalmente, o grande momento do Sudoeste. Skin, sem ignorar os sucessos dos Skunk Anansie, debitou canções autobiográficas que falam da dor da separação, da perda e da partida.
Skin está mais negra, mais virada para si mesma e para as relações entre as pessoas. Mas continua poderosa, a mexer com o íntimo do público e a saber como deixar 26 mil pessoas completamente rendidas à sua força. Skin, cujo nome verdadeiro é Deborah Anne Dyer, teve, ao longo de todo o festival, direito a uma promoção desmedida do seu primeiro álbum a solo, "Fleshwounds", onde fala das suas relações íntimas (com namoradas, claro) e descreve o amor como sendo uma doença mental. As mulheres apaixonam-se, os homens estranham. Pergunta um amigo: "O que é que esta mulher tem que eu não tenho?"
AUTARCA DA ZAMBUJEIRA NUNCA FOI AO SUDOESTE
António Rita, presidente da Junta de Freguesia de Zambujeira do Mar, nunca foi a nenhum Festival do Sudoeste. E porquê? Responde o autarca, atarefado, enquanto serve mais uma cerveja: "Porque temos de trabalhar durante estes dias o que não trabalhamos durante o resto do ano. Isto no Inverno fica vazio e nesta altura fica lotado demais. Por isso temos de aproveitar". E nunca teve curiosidade de ir ver como as coisas se passam por lá? "Sinceramente, não. Não gosto da música nem dos grupos que lá tocam. Eu sou mais virado para os sons dos anos 80, do tipo Eric Clapton", afirma, parco em palavras e sem dar grande importância ao assunto. "E agora desculpe que tenho de trabalhar".
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