Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura
8

Simone abre o coração: "não dou a mínima bola para os que falam de mim”

Cantora brasileira está de volta a Portugal para espetáculos a meias com Zélia Duncan.
Miguel Azevedo 4 de Outubro de 2017 às 19:44
Simone e Zélia Duncan
Simone e Zélia Duncan
Simone e Zélia Duncan
Simone e Zélia Duncan
Simone e Zélia Duncan
Simone e Zélia Duncan
A cantora brasileira Simone está de regresso aos palcos portugueses. A artista toca esta quarta-feira no casino Estoril, dia 6 na Casa da Música e dia 7 no Coliseu de Lisboa. Em entrevista ao CM, Simone fala sobre música, amizade, e o amor que tem a Portugal.


Simone está de regresso a Portugal, desta feita para um espetáculo a duas vozes com a Zélia Duncan. A música tem outro sabor quando é partilhada?

Eu sempre tive muita sorte na vida por poder partilhar músicas com outros artistas. A Zélia, em concreto, foi um presente desde o primeiro dia em que nos conhecemos. Ela é única, ímpar e tem um repertório lindo. Aqui ninguém dorme com ninguém [risos], mas temos a sorte de nos darmos muito bem e de confiarmos muito uma na outra. Temos um enorme respeito e ajudamo-nos muito. Assim tem sido e assim será.

Mas são duas divas no mesmo espaço. O palco não fica pequeno?
[Risos] Neste momento nós somos como uma locomotiva com dois condutores e nenhum é deixado sozinho. Se um não está bem o outro vai e abraça. Existe uma energia muito grande entre nós. Isto não é trabalho, é prazer. Este espetáculo não resulta de duas pessoas que se encontram por acaso, mas de duas pessoas que se admiram e querem estar juntas.

Mas dividir um palco é sempre um ato de cedência muito grande para um artista, ou não?
O artista, por si só, é um ser esquisito, cheio de vícios. Eu, por exemplo, chego ao local onde vou cantar seis horas antes. O que antecede um espetáculo às vezes chega a ser doloroso. Mas tudo isto gira em torno de uma coisa chamada Deus.

Deus porquê?
Porque nós nunca sabemos porque razão é que fomos escolhidos para isto. Eu acredito, aliás, que existe uma comunicação direta com Deus. E não, eu não estou maluca [risos]. Para mim, música é isto mesmo: é comunicação com Deus.

Como é que começou esta sua amizade com a Zélia Duncan?
Nós começámos a encontrar-nos nos espetáculos. Uma assistia sempre à outra, mas nem sequer éramos amigas. Por volta de 2005, calhou trabalharmos com o mesmo produtor e compositor e, um dia, ele convidou- -me para participar no disco dela. A Zélia veio a minha casa e trouxe uma canção. Assim que ela entrou nunca mais voltou a sair [risos]. Naquele dia ela entrou na minha vida para sempre. Depois começámos a estreitar as nossas afinidades.

A sua relação com Portugal já vem de longe. Ainda se recorda da primeira vez que veio a Portugal?
A primeira vez que estive em Portugal foi na altura da Revolução do 25 de Abril, em que fiz os coliseus. Desde então voltei a Portugal dezenas de vezes. Esta será a minha 50ª vez e isto é um marco. Eu adoro Portugal, as pessoas, a cultura, os vinhos e a comida. Bem! A comida não pode ter alho mas como adoro peixe, fica tudo bem [risos]. E depois fiz sempre muitos amigos que ainda por cima falam a mesma língua. Já viu a minha sorte!

E que amigos são esses?
São muitos, alguns deles não são artistas, mas que eu gosto muito ou como vocês dizem em Portugal ‘gosto demasiado’ [risos]. Quando estou em digressão e vou para a Europa, Portugal é a minha paragem. Sinto-me muito à vontade em Portugal. Eu acho que o segredo está na forma como vocês abraçam o brasileiro. Existe uma afinidade tão grande que a certa altura ninguém sabe quem é filho de quem.

Pois! Quase todo o brasileiro tem um antepassado português, um avô, um bisavô ou um tetravô!
Pois é, vocês foram os culpados disto tudo [risos].

No ano passado, a Simone foi muito falada no Brasil e também muito criticada por alguns colegas de profissão por ter dado um espetáculo com bilhetes a 26 cêntimos (1 real). A democratização da cultura ainda é uma utopia no Mundo?
A esta altura da minha vida, eu não dou a mínima bola para os que falam de mim, se gostam ou se não gostam. Já nos anos 70, nas entrevistas que eu dava, eu dizia que tinha um sonho, que era o de fazer espetáculos de graça para as pessoas. E quarenta anos depois eu finalmente consegui fazer isso. O falar mal, toda a gente fala mal de tudo. Para mim foi uma coisa maravilhosa. Eu tive o prazer de conhecer pessoas incríveis que, nunca tinham tido a oportunidade de entrar num teatro, que levavam a marmita [risos].

Fala desses quarenta anos. Fica a dever muito à música, ou a música deve-lhe mais a si?
O que eu sou hoje devo à música e ao desporto. Desde criança que me dediquei sempre a estas duas energias que se completam. Eu tive a sorte de ter tido uma infância dedicada ao desporto (basquetebol) e à música. Os meus pais gostavam bastante de música. O meu pai cantava bem e era apaixonado por ópera. A sua paixão era tão grande que ele tinha a capacidade de segurar as cinco mulheres em casa durante o carnaval e pô-las a ouvir ópera. Claro que todos, os nove irmãos, ficámos, durante muito tempo com horror a ópera.

E a sua mãe também cantava?
Sim, ela cantava e tocava piano maravilhosamente. Lá em casa ouvia-se muita música, especialmente brasileira e a minha infância foi assim: música e desporto.

E de que forma é que estas duas energias, como diz, se complementam?
Muito do que aprendi no desporto ajudou-me na música como a concentração ou a convivência em equipa. Por mais solitário que um artista esteja na frente de um palco, ele sabe que tem uma estrutura por detrás.

Ainda existe muito daquela menina que jogou basquetebol e que tirou um curso de educação física?
Eu adoro quando vocês dizem "menina" [risos]. Mas sim, essa menina continua aqui e não pode morrer.

O que é que a tira do sério?
Tira-me do sério a situação em que está o Brasil. É coisa de que nem gosto de falar. Isto está uma loucura e não é este o Brasil com o qual eu sonhei.

Está criado no Brasil o movimento ‘Temer Jamais’ que junta vários atores, músicos e cantores. Um artista deve tomar posição política?
Eu não acho que esteja obrigado a isso, mas um artista é um cidadão e deve pode exprimir as suas opiniões
Simone Zélia Duncan Brasil Temer Jamais artes cultura e entretenimento música
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)