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Correio da Manhã

Cultura
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'A INFLUÊNCIA DE CATARINA REBELLO PINTO É ALTAMENTE PREJUDICIAL E NEFASTA'

Nuno Nazareth Fernandes, autor e compositor. Braço-direito do presidente da SPA, Luiz Francisco Rebello, entre 87 e 96, abandonou o cargo em situação de litígio. Aceitou falar, sob reserva, da sociedade de todos os direitos... parece!
5 de Fevereiro de 2003 às 00:00
- Correio da Manhã - Qual é a sua história dentro da história da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA)?

- Nuno Nazareth Fernandes - Inscrevi-me como sócio em1966, quando comecei com estas coisas da música, por indicação do meu avô que era muito amigo do Luís de Oliveira Guimarães, um dos homens fortes da SPA. Depois fui canalizando toda a minha actividade para a SPA e não só a música mas também a revista e o audiovisual. A dada altura passei a cooperador pelo volume de coisas que tinha e, em 1988, o dr. Luiz Francisco Rebello convidou-me a integrar a lista da direcção, onde fui proposto para o cargo de secretário e depois para a administração como seu adjunto, juntamente com a filha, Catarina Rebello, e o Francisco Nicholson, sendo ele, simultanemente, presidente e administrador adjunto.

-Adjunto do administrador delegado entre Fevereiro de 1989 e Fevereiro de 1996, abandonou o cargo em litígio...

- No último mandato eu fazia apenas parte da administração e não da direcção por decisão do presidente mas também não foi por aí, repare, eu não abandonei o cargo, eu fui afastado e não foi nem pela incompetência (aí os números falam por si) nem desonestidade que nortearam a campanha de descrédito interno que me fizeram e que terminou em inquérito disciplinar... Processei a SPA, naturalmente, mas estas coisas demoram a resolver-se e, quando me foi proposto um acordo, eu não estava em situação económica de o recusar.

- Vamos chamar nomes às coisas e as pessoas pelos nomes?

- Eu sempre gostei de trabalhar com Luiz Francisco Rebello mas, nos últimos anos, comecei a ter muitos e graves problemas de relacionamento com quem ali dentro põe e dispõe e que, só oficialmente, é o administrador delegado. Ele é, de facto, o último responsável mas, na prática, é altamante criticável e nefasta a influência da dra. Catarina Rebello e isso manifestou-se ao nível da gestão.

- Parece-lhe lícito concluir que há na SPA quem goze de alguma imunidade, impunidade?

- Não posso dizer nem que sim nem que não... Há sedes próprias para as coisas serem discutidas e repugna-me profundamente aquilo que se está a passar com alguma Comunicação Social que insiste em substituir-se à Justiça, em vários campos e não só neste, acabando por pressionar os órgãos de soberania competentes e comprometer a seriedade das instituições que têm de ser preservadas. E, neste momento, há um clima de suspeição na SPA, cujo prestígio não pode ser abalado, nem o da instituição nem o do presidente. Isto pede discernimento da parte do presidente para perceber que, enquanto presidente, tem de actuar sobre a administração, ir às últimas consequências... Onde? Em sede de assembleia-geral!

- A SPA não se esgota na fragilidade da sua administração...

-Pois não mas, repare, há aqui dois aspectos fundamentais. Um é o da ilegalidade e o outro, distinto, é o da imoralidade. E há aqui muita coisa legal e imoral... Há instâncias competentes para averiguar esta questão. E nem sou eu nem é você. Uma parte de tudo isto tem de ser discutida em família, digamos assim, mas outra tem de ir às últimas consequências em assembleia- geral!

- Os autores estão falidos?

- Não acredito na questão da falência técnica actual mas que para lá se caminha, caminha... O que me parece neste momento crítico e pode ser posto em causa é o valor das comissões demasiado elevadas para os serviços que a sociedade presta. Mas, sobretudo, há problemas de gestão interna que têm de ser revistos, nomeadamente ao nível de um organigrama da sociedade, a executar, obrigatoriamente, por uma entidade exterior... Mas também isto se discute em sede própria. O que está aqui em causa é um problema de eficácia que não tem nada a ver, pode não ter com problemas de ilegalidade mas de imoralidade.

-Chamaria imoral a silêncios como os de Thilo Krassman ou João Lourenço, respectivamente, presidente do conselho fiscal e tesoureiro em funções?

- Pois, não sei que lhe diga... Sabe que numa organização com este peso as pessoas confiam e, a não ser que desconfiem, deixam andar mas também pode acontecer pensarem que o que têm a dizer deve ser dito em assembleia-geral e, por isso, se calem até lá.

- Por onde passa o futuro da SPA?

- Penso que o mais grave que existe neste momento e, independentemente da necessidade de cobrar mais e distribuir melhor mas, antes disso, há que fazer o organigrama da sociedade e determinar as pessoas que ocupam lugares de chefia de serviços para os quais não têm competência e, já agora, as que foram afastadas e fazem lá falta em detrimento de outras que estão, claramente, em excesso... Espero que não conclua que começo a falar do futuro preconizando despedimentos em massa mas é, de facto, preciso fazer o estudo do pessoal e da competência do pessoal, dos critérios de promoção e despromoção, de admissão e de exclusão dos funcionários da SPA. E esta é a questão que me parece mais altamente discutível... Quem quiser que a investigue!

- Mantém a confiança na instituição?

- Sim, enquanto instituição considero que posso responder-lhe que sim com uma condicionante, ou seja, desde que as assembleias-gerais reflictam a vontade livre e democrática de todos os seus associados e não apenas de ‘lobbies’ virtualmente legais mas, na realidade, irresponsáveis por falta de informação ou por cumplicidade com esses mesmos ‘lobbies’.

PERFIL

Nuno Nazareth Fernandes nasceu em Lisboa no dia 14 de Junho de 1942 e cresceu numa família de músicos apesar de cedo ter desistido do violino, graças à falta de jeito detectada pelo ouvido apurado do próprio. Não demorou muito até que o lugar deixado vago pelo violino fosse ocupado pela guitarra com que havia de seduzir namorada sensível ao poder de uma boa serenata...

De sedutor a seduzido foi um passo e isto porque uma vez na música, para sempre na música. Uma inusitada Engenharia Mecânica consta do seu currículo mas só ocupa espaço, já que é como autor e compositor que, o seu nome há-de ser e é referência em tudo o que fez e faz.

Festivais da canção foram mais que muitos e da parceria com Ary dos Santos e Tordo ficou obra feita. Ficou a sensação de membro amputado com a morte do poeta. Ficou mais: “um imenso divertimento”. Paixão de momento: o livro que anda a escrever...
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