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Correio da Manhã

Cultura
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A luz que nunca se apaga

A entoação da voz parece ter recuperado a energia, a mágoa, o desprezo, o cinismo, o despojamento que fizeram de Morrissey o cantor que, se calhar, ele nunca teria sido se fosse afinadinho.
1 de Maio de 2005 às 00:00
A luz que nunca se apaga
A luz que nunca se apaga FOTO: Yui Mok/Epa
É certo que o homem tinha avisado há muito tempo, quando escreveu um dos seus textos de génio: há uma luz que nunca se apaga. Mas o tempo gera a descrença, a falta de resultados carrega aos ombros a desconfiança e não há ídolo pop que resista: boa parte dos anos pós-Smiths de Stephen Patrick Morrissey é feito de pedaços que não estão à altura do passado. De resto, se guardássemos alguns ‘singles’ e os álbuns ‘Viva Hate!’, ‘Vauxhall and I’ e o recente ‘You Are The Quarry’ estaríamos diante do rendimento realmente colectável deste impenitente cidadão de Manchester que, como quer e lhe apetece, continua a provocar e a espalhar melancolias.
Ora, acontece que, ao contrário do grupo que o ligou (longe vão os tempos…) ao guitarrista Johnny Marr e a duas figuras menores nesta história, os Smiths, que nunca publicaram um álbum ao vivo, Morrissey faz questão de demonstrar a sua boa forma com o segundo (o primeiro, ‘Beethoven Was Deaf’, não chegava para entusiasmar ninguém). Pode ser ginásio, pode ser terapia, pode ser apenas o tempo (outra vez…), esse grande analgésico, mas este espectáculo no Earls Court londrino, a 18 de Dezembro de 2004, “em frente de 17 183 pessoas” dá origem a um disco – “inteiramente gravado em palco, sem acrescentos ou substituições em estúdio” – que merece ficar na mais restrita das ‘short lists’ dos álbuns ao vivo.
Fundamentais, como de costume em Morrissey, são as guitarras, confiadas a Boz Boorer e Jesse Tobias. Decisiva: a escolha do repertório, com partes de leão entregues aos anos Smiths (cinco em 18) e ao notável ‘You Are The Quarry’ (pelo menos meia dúzia). A entoação da voz parece ter recuperado a energia, a mágoa, o desprezo, o cinismo, o despojamento que fizeram de Morrissey o cantor que, se calhar, ele nunca teria sido se fosse afinadinho.
A montanha-russa começa com as guitarras de ‘How Soon Is Now?’, arrepio certo para quem não andou a dormir na década de 80. O ritmo mantém-se com o genial ‘First Of The Gang To Die’ e com a memória, muito pessoal, de ‘November Spawned A Monster’. ‘Don’t Make Fun Of Daddy’s Voice’ é mesmo um gozo, antes de novo ajuste de contas: ‘Bigmouth Strikes Again’ (agora, Joana d’Arc usa um iPod…). Tempo para provocações (‘Let Me Kiss You’, mais adiante ‘I Have Forgiven Jesus’) e para versões (‘Redondo Beach’ de Patti Smith, ‘Subway Train’ dos New York Dolls). A melhor das sequências: ‘There Is A Light That Never Goes Out’ (a tal luz…) e ‘The More You Ignore Me, The Closer I Get’. Com fala pelo meio: “O tempo há-de provar tudo”.
De ‘Shoplifters Of The World Unite’ passa-se a ‘Irish Blood, English Heart’. Para o final, ‘You Know I Couldn’t Last’ (pois…) e, claro, ‘Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me’. Algures, uma declaração de votos: “Não posso fazer nada – ou é isto ou é a prisão”. Nada disso. Passaram mais de 74 minutos desde que tudo começou.
E só há uma saída: voltar ao princípio. ‘Live At Earls Court’ é mesmo arrasador. E alumia muito.
TOCA A TODOS
Foi um ‘treco’ que lhes deu e que, à custa de convivências com os Massive Attack e quejandos, tende a aprofundar-se. Outrora um casal tão aprumadinho, Tracey Thorn e Ben Watt, que é como quem diz os EVERY-THING BUT THE GIRL, perdem-se de amores pelas misturas e manipulações. O CD em causa tem título sugestivo: ‘Adapt Or Die – Ten Years Of Remixes’ e falta-lhe pouco para ser perfeito, da releitura de ‘Missing’ à de ‘Wrong’, sem esquecer ‘Driving’. E que bom é dançar boas canções! Para variar…
Já sei quais serão as objecções: outra colectânea dos TALKING HEADS? Em verdade vos digo: ele há grupos de que a gente nunca se cansa, aprende-se sempre alguma coisinha. Passaram 25 anos sobre ‘Once In A Lifetime’? Já lá vão duas décadas sobre ‘Road To Nowhere’? E então? Já deixaram de fazer parte da banda sonora das nossas vidas, no que têm de melhor, de mais inteligente e sentido? ‘The Best Of The Talking Heads’, nada mais simples. Façam o favor de não ignorar – por dúzia e meia de razões.
TOCA E FOGE
Com o devido respeito por pai (Loudon Wainwright III), mãe (Kate McGarrigle) e irmão (Rufus Wainwright), pergunto-me se não estaremos a menosprezar o talento mais fresco e imprevisível da família. Chama-se MARTHA WAIN-WRIGHT e o álbum – que surge deste lado só para protestar pela circunstância de não ‘morar cá’, já que é magnífico – homónimo, vai da balada ao grito, de títulos como ‘These Flowers’ a ‘Bloody Mother Fucking Asshole’. Guitarras, despudor, paixão e provocação. Faça-se-lhe justiça.
Quando anda meio mundo embeiçado por uma pérola bem próxima do jazz, chamada ‘Careless Love’ e protagonizada por MADELEINE PEYROUX, consultam-se catálogos e lojas ‘on-line’ e, sem grande esforço, descobre-se que a dama já tinha estreado o vozeirão, o bom gosto e as boas companhias, o repertório selecto, o tom ‘démodé’ em 1996. O achado tem por justo título ‘Dreamland’ e, para quem não note, confirma-se: alguns dos acompanhantes foram parceiros de Tom Waits. Absolutamente notável. Não há cá.
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