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Correio da Manhã

Cultura
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A minha vida é bipolar

José Luís Peixoto, autor de todos os géneros, que este ano se estreou na escrita de uma marcha popular (S. Vicente), tem 33 anos e há sete que é escritor a tempo inteiro. O tempo e a idade são precisamente os elementos conciliadores dos contos e poemas e até da peça de teatro que constituem o novo livro: ‘Cal’ (ed. Bertrand), no dia 14 nas livrarias.
9 de Novembro de 2007 às 00:00
A minha vida é bipolar
A minha vida é bipolar FOTO: Direitos reservados
“A ideia de juntar no mesmo livro géneros diversos e dispersos surgiu-me, em parte, porque tenho muita coisa escrita e por publicar e, em parte, porque ao olhar para aquilo tudo, vi ali uma uniformidade temática que fazia sentido. Rescrevi tudo até conseguir que os textos comunicassem entre si mas esta diversidade de géneros é também uma forma de afirmar a minha falta de preferência por um género dominante. Sou sempre eu quem escreve e eu sou sempre a mesma pessoa”, afirma.
Vêm da infância as pessoas a quem dedica o livro e tem das dedicatórias uma perspectiva original.
“Quando quero dizer a alguém que gosto dela, digo-lho olhos nos olhos ou escrevo-lhe uma carta, nunca uma dedicatória que é uma coisa impessoal que só serve como contributo para a interpretação dos livros e este livro é dedicado a quatro pessoas que são os meus velhos. Todos já desaparecidos mas muito importantes na minha infância: a minha avó e os meus três padrinhos, sim, porque eu tenho três padrinhos!”, explica.
José Luís Peixoto também é conhecido pelos seus piercings, o que não é uma vantagem... “Há pessoas que nunca me leram por pensarem que alguém com o meu aspecto não tem o que lhes dizer, no entanto, sinto-me tantas vezes com 80 anos e muitas rugas... Sempre gostei de pessoas mais velhas e, aqui no livro, espero dar-lhes a voz que elas me deram a mim. Escrevi contra o tabu da velhice porque é urgente recuperar a idade maior que, se tudo correr bem, há-de ser a de todos nós. Já fui jovem e a juventude pode ser arrogante mas temos de encarar e integrar a velhice com sabedoria e optimismo”, diz.
Conhecer um dia normal na vida de José Luís Peixoto é um esforço inglório. Ele não tem dias normais.
“Felizmente que os livros vendem bem e há sete anos que vivo deles mas a minha vida é bipolar: ora estou fora de casa em acções de promoção dos livros, o que me está a acontecer agora, ora não saio de casa absorvido com a escrita que é o que me vai acontecer em breve. Sou obsessivo para o melhor e para o pior. O aspecto positivo disto é que estes são períodos de escrita fulgurantes. Passam-se dias em que o mundo real é o ficcional. Como mal e durmo pior entre outros pormenores calamitosos. Mas escrevo. Escrevo sempre”, conclui.
PESSOAL
UM VÍCIO
“Os cigarros. Deixo de fumar e volto a fumar e, um dia, hei-de conseguir parar mas não é fácil e até lá, pronto, é o meu vício... Até vou acender um !”
UMA MANIA
“Depois dos piercings, as tatuagens. Tenho quatro. Duas são complementares e traduzem afectos: de onde vim e para onde vou... As outras duas não conto. São secretas!”
UM RITUAL
“Sempre que termino um livro faço alguma coisa de especial para o dar por concluído... O primeiro, ‘Morreste-me’, li-o junto à campa do meu pai”.
UMA MÁXIMA
“Basta-me ser feliz. E não preciso de ser mais feliz do que os outros”.
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