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Correio da Manhã

Cultura
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A música africana não é menor que as outras

O angolano Waldemar Bastos regressa esta noite a palcos nacionais. O pretexto é a apresentação de ‘Renascence’, o seu novo álbum.
13 de Janeiro de 2006 às 00:00
Waldemar Bastos gostaria de tocar mais em Portugal
Waldemar Bastos gostaria de tocar mais em Portugal FOTO: Marta Vitorino
Correio da Manhã – Há algum tempo que não toca em Portugal. Como vai ser o reencontro logo, na Culturgest?
Waldemar Bastos – Vai ser um concerto acústico e simples. Vou reunir as pessoas ‘à volta da fogueira’ e cantar. Infelizmente não toco tanto em Portugal como gostaria, mas vou tocando pelo mundo. O reconhecimento da minha música foi sempre muito lento.
– Porque tarda o reconhecimento?
– É preciso descomplexar: a música africana não é menor que as outras. É uma música própria, como todos os países têm.
– O novo álbum, ‘Renascence’ fala de guerra, mas também de esperança. Tem a ver com o facto de ter voltado a Angola após o fim da guerra?
– Paz é uma palavra mágica, sobretudo para um povo que saiu de uma longa guerra, de um estado de angústia e ansiedade para um estado de alegria e esperança. É um povo que recuperou o sorriso no olhar e que passou a conviver na base da fraternidade e da recusa total da guerra. Isso tocou-me profundamente até porque sou de uma geração que praticamente nunca soube o que era viver em paz e tive necessidade de cantar essa felicidade e esperança.
– Como vê o futuro de Angola?
– Radioso, bonito e próspero, porque acredito que os angolanos, que tiveram uma experiência amarga com a guerra, vão ‘lutar’ por um país que sirva os seus próprios filhos.
– Entretanto saiu da Luaka Bop, a editora de David Byrne, que o ‘descobriu’ em Lisboa...
– Saí por uma questão de interesses, de marketing. Senti que o disco anterior (‘Pretaluz’) foi mal distribuído. E então apareceu a World Connection, uma editora holandesa pela qual optei.
– ‘Pretaluz’ foi produzido por Arto Lindsay. Como foi a experiência?
– Arto Lindsay é um produtor muito ‘músico’, mas no início nem sempre foi fácil, porque ele não entendia a minha concepção. Depois, quando demos a volta ao texto, tudo correu da melhor forma. Hoje somos grandes amigos.
– ‘Renascence’ é um passo em frente?
– É um disco de evolução, maturidade e também um ponto de chegada e de partida.
– Daí a ideia de renascimento que o título sugere?
– O mundo focou-se mais no imediatismo e no consumismo e esqueceu as coisas essenciais: o respeito pelo próximo, pela natureza. Nós, os músicos, temos a obrigação de conduzir as pessoas para a reflexão e para uma atitude mais positiva.
– É um dos músicos que melhor faz a fusão entre os sons tradicionais e os cosmopolitas. Como se equilibram ambos?
– A minha música é essencialmente africana, mas aberta ao mundo. E a modernidade vem dessa abertura: de aceitar e incorporar aquilo que é positivo noutras músicas. A tradição, a base, vem do facto de ter percorrido Angola inteira, o que me proporcionou um conhecimento muito vasto das tradições sonoras.
PERFIL
Waldemar Bastos nasceu em Angola em 1954. Começou a cantar muito cedo e, em 1982, numa visita a Portugal, decidiu não regressar ao seu país, então em guerra civil. Viveu na Alemanha, França e também Brasil, onde gravou o seu primeiro álbum, ‘Estamos Juntos’.
Já em Portugal editou ‘Angola Minha Namorada’ (1985), ao qual se seguiu ‘Pitanga Madura’ (1992). Foi então ‘descoberto’ numa discoteca lisboeta por David Byrne e gravou para a editora deste, a Luaka Bop, ‘Pretaluz’, o álbum que lhe abriu as portas da internacionalização.
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