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Correio da Manhã

Cultura
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A NOITE DAS DORES NO CORAÇÃO

Com o sol tapado por uma espessa camada de fumo e uma brisa de odor a incêndio a afectar as narinas, Bradly Drawn Boy entrou em cena no último dia do Festival do Sudoeste com a barba crescida, um gorro a cobrir-lhe a cabeça até aos olhos, uma guitarra na mão e uma voz que cheirava a pétalas de flores. Sozinho em palco, debitou um funk preguiçoso, sons indie e uma dor tão grande no coração que chegou a fazer pena.
12 de Agosto de 2003 às 00:00
A NOITE DAS DORES NO CORAÇÃO
A NOITE DAS DORES NO CORAÇÃO
Repetentes no festival, os Moloko entraram em cena com a postura da loira Roisin Murphy a surpreender com a sua atitude teatralmente despojada. Ela tira a "écharpe", chicoteia o chão com ela, vira-se de cabeça para o chão e coloca os pés no piano, rebola-se pelo palco, parece possuída.
Mais gorda e com os gestos mal definidos, sapatos vermelhos de salto alto, vestido de "hippie" colorido e mamilos salientes, Roisin terminou o concerto com o tema "Sing It Back" enquanto da plateia um rapaz grita até à exaustão: "Maluca, I love you".
Os histriónicos Stereophonics foram os responsáveis pelo pior concerto do festival, o que fez com que muita gente rumasse à tenda Planeta Sudoeste, onde os Mesa tiveram uma actuação irrepreensível com os temas "Tinta" e "Sonho Cibernético" a deliciarem os presentes.
DOR E AMOR
Beth Gibbons & Rustin Man decepcionaram muitos e encantaram outros tantos. A melancolia da música da ex-Portishead chega a ser comovente. Há, efectivamente, beleza na dor, mas ver aquelas rugas tão acentuadas na cara - meu Deus como ela envelheceu -, a sua expressão de comoção e as palavras transportando as cicatrizes causadas pelas perdas, chega a ser doloroso.
E, finalmente, o grande vencedor da noite e de todo o festival: Beck. Tão irónico quanto talentoso, aquele que é um dos nomes mais marcantes da música da actualidade, não permitiu que as pessoas criassem vícios ao ouvi-lo. Deu e tirou. Surpreendeu. Percorreu um largo espectro da música popular mas sem nenhum alarido.
O concerto, sendo desigual, percorreu os pontos altos de uma carreira recheada de sucessos, com destaque para "Loser" e "Devil's Haircut", não ignorando o mais recente álbum, "Sea Change", onde se nota o rompimento com a namorada de longa data. Com espírito de missão, eclectismo e genialidade, Beck, um produto cultural dos novos tempos, deu o seu melhor concerto no nosso país.
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