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Pilar Homem de Melo é hoje uma mulher mais realizada. Em entrevista, a cantora recordou como sobreviveu ao "inferno astral" e confessou ter "perdido o medo". Agora, até já se atreve a dar "uns gritinhos". A conferir no seu novo álbum.
Correio da Manhã - Como é que este álbum começou a desenhar-se ?
Pilar Homem de Melo - O embrião surgiu em 2002, o ano mais criativo da minha vida, durante o qual compus muitas canções para as quais o Tiago Torres da Silva fez as letras. Depois, começámos à procura de produtor, o que em Portugal não é fácil. Surgiu então a ideia de trabalhar com vários produtores, gente jovem, cheia de talento, que fizesse música com amor e foi dessa forma que surgiram o Alexandre Cortês (Rádio Macau), Filipe Valentim (Rádio Macau), Mocho (Peste & Sida), Mourah, Tjak (Gabriel Gomes, ex-Madredeus e Poetas), João Roquete e Augusto Sanchez, responsáveis pelos arranjos.
- Como foi feita a selecção dos temas para cada um dos produtores?
- Escolhi intuitivamente. Por isso, o trabalho de estúdio foi muito interessante e nada monótomo. Uma semana trabalhávamos com um grupo, depois vinha outro grupo... e isso dava-nos muito alento.
- Tiago Torres da Silva, autor das letras, é um colaborador seu de longa data. Como funcionam como dupla?
- Foi o Tiago que me devolveu à música. Veio ter comigo e disse-me: 'Ou gravas, ou gravas, porque é um desperdício não o fazeres'. Eu e o Tiago somos uma dupla no verdadeiro sentido. Sempre sonhei ter alguém que escrevesse como se fosse eu a fazê-lo e ele corresponde totalmente a esse ideal. Ao princípio, fazia a música primeiro e ele escrevia as letras depois. Até um dia em que ele entregou-me uma letra, cheguei a casa e fiz logo uma música que me levou às lágrimas. Neste álbum o processo é metade-metade. Por vezes, o Tiago consegue escrever sobre coisas que eu ainda não vivi. Escreveu a letra do tema 'Amor e uma Guitarra', cujo refrão diz 'compor comovida/por poder aprender/o amor como vida/dentro em mim a nascer' e isto... sou eu! Espero que seja uma dupla para todo o sempre.
- Que aspectos distinguem este álbum dos anteriores?
- É um disco mais interventivo e forte. As pessoas geralmente acham que sou muito calma e emotiva, mas neste disco já dou uns 'gritinhos'. Já cresci um bocadinho e perdi o medo. A nível sonoro, o forte deste álbum é a melodia.
- Porquê o título 'Põe um Bocadinho Mais Alto'?
- É uma história muito simples, que começou no estúdio, pelo facto de eu estar sempre a pedir para porem a escuta um bocadinho mais alto, para cantar com mais garra. Além disso, as pessoas devem ouvir os discos alto, pelo menos uma vez. Mas também tem o sentido de elevar a consciência da humanidade: mais alto, com mais amor...
- Porque esteve tanto tempo sem gravar entre 'Pecado Original' ('93) e 'Não Quero Saber' (2001)?
- Foi a pausa natural de alguém que faz música com amor e, de repente, está nas rádios, TV e revistas, mas não tem sequer dinheiro para pagar a renda. E foi aquela fase da vida de uma mulher dos 29 para os 30 anos, o chamado inferno astral. Estava zangada. Fui para o Brasil e por lá fiquei uns tempos. Quando se faz música tem de se fazer com amor e dedicação. Se uma pessoa não está bem, a música também não sai bem. A partir de agora não vou pararmais. Quero fazer um disco de dois em dois anos, no mínimo.
- Como se define enquanto artista?
- Sou uma pessoa transparente, simples. Quero é dar amor ao mundo, com música, que é aquilo que eu sei fazer. Claro que um bocadinho mais de abundância e prosperidade não fazem mal a ninguém. É como diz a letra de uma das minhas músicas: 'uns dias anarquista, outros dias liberal. Uns dias Quaresma, outros Carnaval'.
"É PRECISO DAR ESPAÇO A TODOS"
Sem papas na língua no que toca ao estado da música portuguesa, Pilar Homem de Melo chamou a atenção para algumas "incongruências" que afectam o meio. "É preciso ter atenção à cultura em Portugal e aos artistas, porque é uma das coisas mais importantes de um país. Os 'venham mais cinco' são coisas feitas pelas únicas pessoas que tocam na rádio, que têm espectáculos grandes e que, efectivamente, vivem da música. São influentes, chegam ao Presidente e a todo o lado. Seria mais importante que os 'media' ouvissem a música com o coração. Não venham só dar dicas que é parecido com isto ou aquilo. Os artistas fazem música para mostrar ao público. Há gostos para tudo e espaço para todos... é preciso é darem espaço a todos", disse.
Pilar Homem de Melo tinha doze anos quando se mudou, com a família, para a terra da bossa nova. É lá que, sem professor e com o ouvido como guia, aprende a tocar guitarra. Com 15 anos e já com algumas músicas da sua autoria, conhece Caetano Veloso e, com a praia de Ipanema por cenário, revela-lhe que compôs uma música a si dedicada. É ainda no Brasil que dá os primeiros concertos, em bares de norte a sul do país. Aos 21 anos regressa a Portugal e cerca de três anos depois assina o primeiro contrato discográfico. Da sua discografia fazem parte os álbuns 'Pilar'(1989), 'Pecado Original' (1993) e 'Não Quero saber' (2001).
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