Há aqui um notável cruzamento de conceitos que passam por Daniel Lanois e Ry Cooder, sem prejuízo da personalidade de Simon.
São raros os veteranos que, talvez por receio de se transformarem em ‘velhos gaiteiros’, que aceitam correr riscos quando, em teoria, alcançam a fase mais repousada na carreira das cantigas. Como Paul Simon, confesso, não conheço nenhum: o homem é irrequieto, permanente garimpeiro de sonoridades, viajante à procura de parcerias estimulantes, um aventureiro sem medo de ir percorrendo todos os quadrantes que a música lhe pode oferecer, sem precisar de abandonar, por um momento, o formato da canção.
Em boa verdade, não precisava destes ‘raids’ – bastava-lhe, nas últimas três décadas e meia, ter vivido dos ‘rendimentos’ amealhados nos anos 60, quando cantava lado a lado com Art Garfunkel, numa das duplas-chave da canção americana da época, coleccionadora de hinos ainda hoje objecto de culto, de atenção popular e de constantes versões. Simon, chegado o tempo de solista, não quis estagnar, assinalou álbuns notáveis em que aflorava o jazz e a pop sempre com elegância nos arranjos e nas melodias, sempre acima do óbvio nos textos – ‘Paul Simon’, ‘Still Crazy After All These Years’ e ‘Hearts and Bones’ são disso bons exemplos. Viajou até África para conceber o notável ‘Graceland’, deixou-se contagiar pelas baterias de percussão brasileiras quando rumou a ‘The Rhythm Of The Saints’, chegou-se aos balanços porto-riquenhos e ao doo-wop em ‘Songs From The Capeman’. Sempre em mudança.
Agora, está aí mais um passo na reinvenção permanente: a nova excursão ruma ao universo de Brian Eno, o mais criativo e certeiro dos produtores musicais da actualidade (U2, Peter Gabriel e Talking Heads estão entre os que muito lhe devem). Vindo de um excelente ‘Another Day On Earth’ em nome próprio, Eno deitou mão às novas canções de Simon – e assinou com ele três parcerias – com avidez e tacto, sabendo que não será frequente poder trabalhar sobre matéria-prima deste nível.
O resultado de ‘Surprise’, se bem que não seja exactamente uma surpresa, é categórico: diante da riqueza de ‘Everything About It Is A Love Song’, ‘Outrageous’, ‘Wartime Prayers’ (cortante como aço, um manifesto nada panfletário que visa os desdobramentos americanos pelas guerras em que o respectivo poder político se envolve), ‘Beautiful’, ‘I Don’t Believe’, ‘Once Upon A Time There Was An Ocean’ e ‘Father and Daughter’ (arrepiante, pela exposição e pela profundidade), Eno criou, para as acamar, aquilo a que chama “sonic landscape”. Expressão que quererá implicar o desenho de horizontes abertos – há aqui um notável cruzamento de conceitos que passam por Daniel Lanois e Ry Cooder, sem prejuízo da personalidade de Simon – mas, ao mesmo tempo, uma drástica limpeza de tudo o que é supérfluo.
Simples? Parece mais do que é: pautar um álbum de canções superiores pelo diapasão das guitarras, acústica e eléctrica, mantendo-o como algo de abertamente inovador, não seria tarefa para muitos. Eno tem base para as suas ideias. Simon tem um embrulho perfeito e perene para os temas da maturidade – vai a caminho dos 65… Nós ganhamos um disco que dificilmente deixará de figurar na lista dos melhores do ano. Velhinhos assim, queremo-los todos os dias.
Festa: SLY & THE FAMILY STONE, uma das pedras-chave de toda a música negra actual, recrutam amigos para reler os grandes êxitos da banda (que vem dos anos 60). Em ‘Different Strokes By Different Folks’ surgem Will.I.Am, Joss Stone, Moby, Buddy Guy, Isaac Hayes, Steven Tyler e Janet Jackson – luxo! Perto da canção, à vista do jazz, canta seguro: ERIN BOHEME estreia-se com ‘What Love Is’, onde cabem Cole Porter e Sammy Cahn, Peggy Lee e Tracy Chapman. Nos temas novos (alguns co-escritos por Guy Chambers, parceiro de Robbie Williams), destaca-se ‘One Night With Frank’, homenagem ao ‘blue eyes’.
Este disco, ‘The Best Of Gil Scott-Heron’, foi posto à venda na véspera de mais uma sentença de prisão do seu autor. Tem sido um toca-e-foge constante, nos últimos anos. Mas nada impede este americano de Chicago de ocupar o seu lugar na história – é considerado o ‘padrinho’ do rap e uma das expressões máximas da canção de combate, sempre com balanço e com funky. Aqui, GIL SCOTT-HERON é revisitado no seu melhor período, 1971-1982. E não falta o épico ‘The Revolution Will Not Be Televised’. Um documento de prazer.
Cada um tem os ‘pimbas’ que merece – cá, continua o milagre da multiplicação. No Brasil, o pior que há na música parece concentrado em LEONARDO (cujo parceiro, Leandro, morreu há alguns anos). ‘De Corpo e Alma’ confirma tudo: voz esganiçada, canções a metro, textos risíveis, um pagode, uma tristeza. É comum: abordagem estilizada desvirtua o que há de autêntico em músicas que nos são distantes. É o que se passa com a edição de ‘MONJES BUDISTAS’ (assim, à espanhola), atribuído aos religiosos do mosteiro de Sakya Tashi Ling. Uma mistificação, com o pior da new age a servir de leito aos ‘mantras’.
ANDRÉ SARDET: PROVA DE PALCO
À falta de melhor, é habitual empurrar André Sardet para a órbita de Luís Represas. Mas este autor e cantor de Coimbra, agora com 30 anos, continuará menos preocupado com os rótulos do que empenhado em melhorar a sua escrita e a forma de cantar, sem fugir do ‘mainstream’ mas marcando cada vez mais uma personalidade que, em dez anos e três álbuns anteriores, já provou valor, inspiração e trabalho.
‘Acústico’ (que contém um DVD bónus de três temas), gravado ao vivo em Coimbra, em 2004, é uma óptima oportunidade para acertarmos o passo com um criador que não finta o intimismo e que, com inteira justiça, se diz já cansado de ser olhado como “uma esperança”. Quando se ouve ‘Foi Feitiço’, ‘Se Eu Disser’ (em dueto com Luís Represas), ‘Hoje Vou Ficar’, ‘Não Mexas no Tempo’, ‘Quando Eu Falei de Amor’ (melhor na versão de estúdio) e ‘Balada da Estrada do Sol’, percebe-se essa reclamação – é que já andam por aqui maturidade e sensibilidade para o reconhecimento por inteiro.
Fim de ciclo, ‘Acústico’ pode valer – aos desatentos – o princípio de uma bela amizade. Como nos filmes, como nas canções.
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