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Correio da Manhã

Cultura
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A revolução no cinema

E se de repente alguém inventasse um sistema de filmagem tão realista que os actores de carne e osso passassem a ser dispensáveis?
6 de Agosto de 2006 às 00:00
Andrew Niccol já o tentou, com algum êxito, no filme ‘Simone’, de 2002. Mas enquanto a fita é pura ficção, o multimilionário Steve Perlman subverteu o argumento na vida real e está agora a dar os últimos retoques em Contour, um novo sistema digital que promete criar actores virtuais… muito reais. O que acontecerá a Angelina Jolie (ver infografia) se for substituída por um ‘clone’ perfeito?
Aos 45 anos, Perlman tem um currículo de fazer inveja. Ajudou a desenvolver o QuickTime para a Apple, fundou a WebTV Networks (que acabou por vender à Microsoft por uma fortuna) e agora inventou este método futurista de filmar que criará actores sintéticos com ar de carne e osso, através da captação audiovisual dos movimentos faciais de actores reais.
O Contour implica que os actores – que aqui viram quase manequins – sejam maquilhados com um pó fluorescente, invisível sob a luz normal. Debaixo de uma luz fluorescente, que fará sobressair a maquilhagem, um batalhão de câmaras sincronizadas vai gravando os gestos, expressões faciais dos actores, em intervalos rápidos demais para a percepção humana, conseguindo a recriação de imagens faciais com uma extraordinária resolução.
As imagens são depois transmitidas para uma rede de computadores que manipula e edita as cenas digitais. Em poucas horas, ‘voilá’!... Aí está uma nova Angelina Jolie, qual Tomb-Raider, accionada por controlo remoto.
E não só o cinema pode vir a ganhar com a nova tecnologia. Também o mercado dos videojogos e da animação sofrerá grandes alterações quando o Contour se materializar já que, até hoje, os actores digitais mais perfeitos exigiam um complexo trabalho tecnológico a um custo muito elevado. Uma virtude virtual realmente assustadora…
A FICÇÃO DE 'SIMONE' CADA VEZ MAIS REAL
Andrew Niccol imaginou a história e filmou-a. Em 2002 estreou ‘Simone’, um filme original onde Al Pacino veste a pele de um realizador cuja carreira cai em desgraça. Inconformado, o cineasta descobre a pólvora quando, antes de morrer, um génio louco dos computadores lhe deixa um inovador programa informático.
A prenda, literalmente, faz milagres. Com o ‘Simulation One’, Al Pacino vai ver a sua carreira revitalizar já que tem agora o poder de criar na perfeição uma actriz virtual (papel interpretado pela desconhecida Rachel Roberts), em tudo igual às restantes de carne e osso. Com algumas particularidades: dispensa ‘cachets’ exorbitantes, não precisa de duplos nem de dietas loucas, não se dá ao luxo de ter crises de identidade ou manias. Melhor ainda, não tem vida própria e é muito bem mandada... ao sabor do botão certo.
ANTES E DEPOIS
EMPRESÁRIO/INVENTOR
Mesmo sem formação, Steve Perlman é um perito em informática. Aos 45 anos, o multimilionário empresário e inventor já patenteou várias dezenas de projectos tecnológicos, de entretenimento, multimédia e electrónica. Destaque para o desenvolvimento do sistema de vídeo na internet QuickTime, que criou para a Apple, e a fundação da WebtTV, que acabaria por vender por uma fortuna à Microsoft.
CONTOUR
Ainda está em fase experimental, mas o Contour pode vir a transformar-se numa rentável ferramenta para o mercado cinematográfico, de videojogos e animação. Exigindo uma parafernália de câmaras – cerca de 40 – e de luzes fluorescentes para a captação de imagens, implica ainda uma complexa rede informática para leitura das imagens capturadas e posterior manipulação.
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